segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Meu canto

Pra quem eu canto a minha música? Sinto que a voz no meu peito grita pra sair, e eu me pergunto se ela deve sair em forma de riso, em forma de choro. Me sinto infinita, com todo o sentimento do mundo dentro de mim. É uma canção repetida, mas sinto como se a estivesse descobrindo pela primeira vez, porque renova em mim uma vontade de me expor, de mostrá-la em suas arestas mais imperfeitas, mais milimetricamente frágeis e incompletas. Como um quebra-cabeça cheio de peças mal encaixadas, deliberadamente mal formadas, à espera de um pequeno ajuste aqui, uma jogada mais gentil, uma reviravolta sutil e avassaladora.
Na verdade não há nada de errado, mas o canto não deve caber em uma planilha pré-programada ou num arquivo mil vezes revisado. Ele tem que estar no mundo, tem que ter vida própria. Não precisa métrica, não precisa de toda uma preparação exaustivamente ensaiada, com brilho, iluminação especial e, inevitavelmente, aplausos. O canto deve sair descarado, contorcido, extrapolado, exagerado, quase deixando as minhas bochechas vermelhas. Deve sair quando achar que encontrou ouvidos dispostos e abertos, ou quando achar que simplesmente precisa jogar-se ao vento. Uma música preferida ou nem tanto assim – mas o sentimento bruto e ainda quente.
Tenho vontade de um microfone baixinho, uns sussurros roucos e um expectador atento, minimamente curioso. Só para cantar quem sou, para me fazer ouvir. Para que me veja, sem que precise de olhos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Divã 1/2

Não, não, não. Eu tento manter minha posição, manter uma pose. Tento te convencer de que estou certa, que sua teimosia coloca a gente num abismo. Bato o pé, viro as costas. Choro. Elaboro. Isso tudo pra mim é uma grande desculpa.
Será que é mesmo tão difícil? A verdade é que eu mesma odeio enxergar, odeio sentir um impulso maior do que o meu direito de pedir. Eu queria só pra mim, mais até do que ter inteiro. Não me bastaria só ter inteiro. Eu queria tudo e ainda mais, queria o meu desejo irracional de não dividir. Porque cada vez que via sorrindo um riso que não era meu, sentia mais longe de mim.
Louca.
Depois dessa confissão, preciso dizer, a loucura se esvaiu. Um suspiro aliviado, por favor. É, eu sei, a gente aprende a controlar nossos impulsos ridículos de agressividade. E aceita que pra ser normal precisa concordar com os limites sociais das relações. A arte da sutileza – fazer comentários simpáticos sobre alguém, dizer que sentiu muito não ter estado presente naquela ocasião. Um blá blá blá mentiroso, quando a verdade é bem mais feia. Problema de cada um – todo mundo é, e não se fala mais nisso.
...Nossa, como eu tou mal-humorada hoje!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Vermelho



Vermelho cor de sangue, cor de rosa, cor de língua. Vermelho de sapato, de telhado, de maçã envenenada. Vermelho batom. Vermelho da camiseta da farda de trabalho, da lingerie sensual da vizinha, da parede do quarto de motel. Vermelho lápis de colorir e molho de macarrão. Vermelho lataria do carro velho, vermelho do ônibus pro outro lado da cidade, vermelho da Fórmula 1. Vermelho do esmalte descascando no dedão do pé. Rio Vermelho. Barão Vermelho. Chapeuzinho Vermelho. Boi Garantido, Parintins. Vermelho cereja em cima do bolo de chocolate, no cetim do gorro do Papai Noel. Mar vermelho, valete copeta, dama de ouro. Vermelho agridoce. Vermelho pigmento, corante, solvente, luz primária. Mucosa. Vermelho jambo, claro, fosco, pálido, encorpado, escuro, amplo, fechado, vermelho e ponto final. Cor de fogo e cor que queima. Tapete vermelho, paladar. Vermelho do vidro, do granito, do picho, do patuá. Vermelho do lencinho perfumado da vovó, da cortina florida da varanda, do sorvete de frutas vermelhas. Vermelho Bolchevista. Vermelho do laço, do cadarço, da bochecha no embaraço. Vermelho na bandeira do Japão, no Manchester e no Inter, na taca bem servida do Manhattan. Vermelho na capa do livro da luxúria. Amarrado na cintura no San Fermín. Na estola do padre na Quaresma. Vermelho marcando a pele do pescoço, marcando o arranhão da unha no outro, marcando o rubor da exaustão. Vermelho em pontinhos múltiplos no corpo inteiro do moleque, na nota ruim no boletim. Vermelho gourmet. Vermelho morango, rubi, framboesa, e também coração. Infravermelho. Olhos e beijos. No céu soturno, crepúsculo. Na discromopsia, tom de verde. No dia-a-dia, tomate. Rouge, red, rot, rojo. VErmell. Cinta liga. Vermelho de alerta, de sinal fechado, de parar, proibido parar. Vermelho aquarela, hidrocor, tinta na tela, música da Mata. Vermelho paixão, emoção, explosão, irritação. Vermelho vestido de festa, saia garança, boina francesa. Víscera. Pimenta. Pôr do sol. Languidez. Catchup. Vermelho de metila, de esclera, de espinha e queimadura no fogão. Vermelho veludo. Joaninha. Embrulho pra presente. Vermelho cranberry, Campari e chá pra emagrecer. Vermelho carne, vermelho desejo. Vermelho cor de sangue, cor de gente, cor de vida.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Nessa noite

O tom parece definitivo, como uma sentença da qual não posso fugir. Nessas horas o passado me invade como um punhal, e eu sinto rasgar fundo, tão fundo que me faz entorpecer. Desisto de lutar e me deixo sentir. Há mais por trás do que eu acreditava existir, e agora tudo borbulha na superfície. Minhas mãos estão fracas e eu descubro ter ossos de vidro. Tudo quebra num piscar de olhos, meus ossos quebram, a mentira que eu me inventei quebra, o ar indiferente se estilhaça em mil pedaços no chão. Algo me toma sem me dar escolha, sem pedir licença, e por fim, o meu estômago dói e o meu corpo está em chamas. A fadiga é insuportável, mas eu estou cansada mesmo é de não encarar. A verdade é posta, e eu tenho fome. A verdade é farta, por mais que eu tenha medo. O prato está à mesa e com ele, o convite à vida.
(...Mas ainda assim, aqui no 15º andar não há paredes, e eu não alcanço as mãos.)
Quando todas as luzes se apagam, tenho a sensação de que o mundo dorme, de que tudo finalmente acabou. Será que eu vou ter paz? Abro os braços e fecho os olhos, deixando o vento sentir minha pele. Nessa hora, eu faço meus pedidos. Alguém me disse que de ossos de vidro brotavam asas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Enquanto andava na rua

Enquanto andava na rua, tinha a certeza dos sentimentos da rotina (esses que todo mundo já conhece). De repente, meus lábios arquearam para cima, ensaiando um riso involuntário. Abaixei a cabeça, fingi uma falsa concentração e apertei o passo, como se com vergonha daquela descaração inapropriada e sem sentido que acabara de me tomar. Onde já se viu, sair sorrindo por aí sem sequer saber o motivo! Coisa de gente doida, com um parafuso a menos, gente que não regula bem da cabeça. Definitivamente, eu não estava normal. Fui pega desprevenida, como se um vento tivesse passado e levantado a minha saia bem em frente à obra da esquina. Raio de sensação mais esquisita, vontade de abrir um sorriso no meio do dia, sem no mínimo uma explicação... Quem foi que disse que se pode sorrir assim?

... Mas, mudando de assunto, o que é mesmo felicidade?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

“...Serais ce possible alors ?...”


Sinto um cheiro de saudade. Saudade daquilo que não foi, daquilo que não pôde ter sido. O tempo é um moinho d’água, e carrega todas as coisas consigo, assim como o vento leva e traz sementes de girassol antes do começo da primavera. Ele, o tempo, muda tudo, nos faz existir além da nossa vontade, e entre trapaças e surpresas, descubro que não estou imune. Sinto hoje um desejo de retirar certos nãos - mais que isso, sinto vontade de ter me deixado ir. Melancolia. Decisões nunca são fáceis, mas tenho descoberto que mais difícil que tomar decisões é assumí-las depois. Vivenciá-las. Eu não paguei pra ver e hoje os meus olhos reclamam. Sentem falta de terem tido qualquer pingo de nada. De terem simplesmente visto, sem nenhuma outra exigência. Sinto uma saudade que corroi e que pesa uma tonelada no peito.
Havia uma roda-gigante, mas decidi ficar embaixo e então ela se foi, girar sem mim. Agora olho tudo com esses tais olhos de saudade. Logo eu, que tinha certeza dos meus passos certos no chão, da minha indiferença por esse joguinho que me parecia monótono demais. Hoje eu ensaio um pedido, e por trás dele há uma falta quase vital de estar em meio à roda-gigante, de enxergar o mundo daquele jeito de lá. De mãos dadas, talvez.
Enquanto penso tudo isso, lembro do dia em que aprendi a ver através de uma lente, e nesse dia, o céu tinha diversas cores. Mas a luz, talvez por estar óbvia demais, extraordinária demais, não me deixou perceber. Eu vivi o vento no rosto, o sorriso tímido, os prazeres mínimos e completos, mas não segurei a mão estendida. Um não, outro não. Por quê?, me pergunto agora. Por quê, se hoje eu quero tanto estar lá?
Numa noite cheia de estrelas, decido que é a hora. Me encho de umas palavras poucas, num tom ainda envergonhado, assumindo uma meia coragem, mas dessa vez cheia do sim. "Vou me jogar"! Sorrio nervosa, espero a roda parar, um convite para subir, um convite para ficar de vez. Silêncio. Duas voltas depois, silêncio. Cinco, vinte e cinco, cinqüenta voltas depois, silêncio. Sento sobre os meus pés, agora inúteis para mim, e sussurro baixinho uma música francesa. A roda não pára e eu estou fora dela, com saudades. O tempo passa, cumprindo a sua sina. E então escurece, dessa vez sem estrelas.

“...Pourtant quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore...”

sábado, 7 de novembro de 2009

café

Tarde longa e sem pressa. Num café, aquele aconchegante no fim da avenida grande, onde os carros desaceleram relutantes decidindo para que lado ir. Entro, deixando as coisas que são de fora para fora. Escolho a mesinha ao fundo, aquela mais escondidinha, que tem um par de cadeiras acolchoadas. O lugar não é nada pretensioso, nem a minha intenção ali. Gosto particularmente da iluminação meio preguiçosa, do ar mareado, do jeito discretamente despreocupado do avental do garçom. Gosto da caneta atrás da orelha, que toca - quase toca – o seu sorriso largo. Gosto de estar solta, de me sentir leve e ter todas as dúvidas. Mas o pedido é o mesmo, o mais simples de todos, aquele de sempre: café. Puro. E quente, pra que se esfrie. Quanto mais frio, sinal de que não vi o tempo passar.
De costas para o cartaz que parece ter cheiro, observo calmamente o movimento das pessoas. Gente anônima, nem mais nem menos extraordinária. Gente, com toda a imensidão explicitamente contida que há de haver nelas. Eu finjo não ver, mas olho, quase que atentamente. Não é bisbilhotagem barata, devo dizer – é interesse! Como um magnetismo sutil, que me faz, de tempos em tempos, examinar tudo ao redor. Há um quê de poesia no jeito como o mundo se arruma, no jeito como as pessoas escolhem transitar nele – e dar dois beijinhos no rosto, inclinar a cabeça para trás ao rir exageradamente, olhar o relógio repetidas vezes, pingar uma gota de café na gravata azul. O cotidiano é surpreendentemente mais incrível quando a gente decide se interessar por ele.
O café chega, numa xícara branca que o faz parecer mais preto ainda. Preto e forte. Mas depois do aroma bom, o que sinto mesmo é um calor lancinante por dentro de mim. E o fogo desce fazendo um trajeto longo, me fazendo checar involuntariamente qualquer indício de ventilação por perto, me tomando por inteira e acabando num suor frio. Arranco o lenço do pescoço. Uma vez um amigo meu me perguntou o que eu achava de café – e eu respondi: “café é forte e vicia”. Segundo ele, descobri minutos depois, o que a pessoa pensa sobre café representa o que ela pensa sobre sexo. (E nesse momento, eu me vi em reticências.)
Deixo o café na mesa e me viro para pegar o diário na bolsa. Decido aproveitar a desculpa de ter de me mexer na cadeira para fotografar o ambiente mais uma vez. É uma espécie de espionagem, eu sei, mas não consigo evitar. Me dou pouquíssimas chances de estar apenas como expectadora. Sendo assim, ter a oportunidade de simplesmente ver a vida é como uma proposta indecentemente encantadora. Então eu vejo. Na mesa ao lado, uma moça com jeans usados e cabelos vermelhos bem curtos– sozinha também. Uma camiseta branca com o símbolo dos Rolling Stones – será que ela canta? Ou toca guitarra? Ou estuda cinema? Ou espirra muitas vezes ao dia? Ela tem um gato. Quer dizer, ela parece ter um gato. E acho que ela tem um gato de nome Joey.
Dali mais adiante tem uma portinha daquelas de bar de filme faroeste, e a supor pelos bonequinhos (de saia e de calça) desenhados nas laterais, percebo que ali é o banheiro. Mulheres costumam demorar mais tempo para sair, mas elas parecem mais familiarizadas com o ritual de ir a banheiros públicos (retocar a maquiagem, olhar no espelho, lavar as mãos, acompanhar a amiga. Às vezes, fazer xixi – e só.) Da tal portinha sai agora uma mulher elegantérrima. O batom, tom rosa claro, definitivamente acabou de ser colocado. Ela anda num salto que me faz perder o equilíbrio só de me imaginar em cima dele. E se chama Soraia. Não, talvez Simone ou Bárbara. Pode ser Bárbara realmente. Ela senta numa mesa que tem um moço esperando. Ele, já era de se esperar, tem um sorriso satisfeito no rosto.
Agora tomo um outro gole do café, bem mais frio que antes. O garçom me pergunta se eu quero mais alguma coisa, de um jeito tão simpático que eu fico me perguntando se aquilo foi uma gentileza ou apenas o trabalho dele. Prefiro achar que foi um misto dos dois, assim ele não fica com uma imagem de funcionário desleixado nem de empregado-robô. Eu não quero nada, mas agradeço pela atenção. Ao sair da minha, ele vai para uma mesa com três homens inseridos em ternos de diferentes tons de cinza, que falam alto, excitados com alguma coisa – um contrato, talvez. Ou só o jogo de futebol. Anota os pedidos, que eu não consegui ouvir, põe a caneta atrás da orelha e segue do seu jeito, quase alegre. Bom seria se todo mundo trabalhasse assim.
Fico mais, escrevo no diário, relembro coisas, observo as diferentes gentes que entram e saem, sem parar. Sorrio para mim mesma. Penso, penso, penso, até estar cansada. Um cansaço gostoso e doce... A tarde está indo embora e eu decido que devo ir também. Pago a conta, saio na rua, veja a avenida grande e, por fim, tenho que decidir. E pela direita eu vou.