sexta-feira, 13 de julho de 2012

Para a parte de dentro que parece dormir.

Quero marcar um encontro com você. Você, ou eu mesma, naqueles dias em que o mundo era bom. Quero entender o motivo do riso, o riso sem sentido, o riso pelo simples fato de rir. Quero aprender a ouvir música outra vez, decorar frases soltas que parecem ter voz, sublinhar trechos cotidianos que descortinam os mistérios tolos e óbvios num quase raio de luz. Quero te olhar no espelho e encontrar seus cachos soltos, seus dentes todos à mostra sem vergonha, seu olhar debaixo de uma linha marrom. Seu perfume cheio e doce. Você, inteiramente doce.

Quero te encontrar naqueles dias em que você se dá contenção, colo, carinho, papel toalha. Essa habilidade grande e rara de cuidar de si mesma, olhar para dentro com um pouco mais de atenção, de paciência. O exercício de saber respeitar seu próprio tempo. Esse potencial secreto de ser incrível, em silêncio, caneta e linhas em branco, poesia, sonho, inspiração.Essa você, que eu costumava ter.

Aqui jaz um corpo que pertence a você, e somente a você. Que te aguarda cheio de saudades, e transborda de amor pelo que de fato faz valer cada um desses segundos mortos. Canto uma canção de ninar, para que quando acorde, volte.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Crua

Não adianta perder aquilo que te serve, nem deixar que escorra o que lhe é essencial, as coisas simplesmente correm como devem ser. A noite foi feita também para os justos, para que travesseiros ouçam e sequem, para que o tamanho das coisas diminua até que fiquem pequenas o bastante a ponto de se fazer dormir. Hoje o som está tão alto que eu percebi não haver remédio. Fico pensando na diferença que faz minha "grande nobre" intervenção no mundo. Tenho medo do gosto amargo diluir o quanto eu me importo, deu sentir que entre o nada e o tudo não existe tanta coisa assim. Já me vejo abstenha, oscilante, desconfortável. Estátua. É doloroso o que não se pode fazer, ainda mais a constatação de que a dor é perene, âncora crua dos fatos... Reticências. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Hoje estou pintando meus brincos de tom de pele, torcendo para que as luzes do dia se mantenham apagadas. Hoje estou fazendo desenhos em folhas de papel rabiscado, desejando evitar as vozes ao redor que insistem em perguntar. Sou a lágrima no rosto duro de pedra. Não entendo muito bem o que esperar do ego que me sopra forte no pescoço, aqueles anseios fortes de menina teimosa, que vivia ao contrário por insistir em acreditar.  Hoje acordei cinco minutos depois, a roupa de cama com cheiro do sabonete de longe, nenhuma expectativa em relação ao levantar. Não comi, nem chequei as mensagens, desejei que ainda fosse daqueles dias de não vir. Hoje eu sei que não vai haver sol, nem vai haver recordação doce com gosto de fruta que escorre pelo canto da boca. Hoje eu acordei às quatro da manhã, corpo nu e roupas pelo chão. Espalhada. Pensei que tudo poderia sim, ser uma boa idéia, mas não tive muita certeza. Repeti a rotina dos dias que não têm muito a acrescentar: levanta, vem, fica, fica, fica, fica mais, volta, come, dorme. Hoje eu permaneci com a sensação de que eu deveria chorar por algum motivo que eu não sei. Minhas mãos e bochechas queimando um calor de algo que precisa sair, e não tem forma. Encontro alguém que me olha como se soubesse de algo que não sei, e eu peço apenas um pouco de atenção. Mas logo desisto de tentar. Hoje eu acordei lembrando de ontem à noite e ri sozinha, pus uma música alta e cantei debaixo do chuveiro. Hoje eu decidi comer brigadeiro no almoço comer pipoca no jantar, não mais telefonar. Decidi desligar por um instante, luzes, cartas, sonhos, e esperar tempo suficiente para  amanhã amanhecer novamente.. 

domingo, 1 de julho de 2012

Pelo completo mês

Esse tudo que eu não sei me cobre hoje de nada. Eu escrevo as minhas palavras todas para você, que me lê olhando dentro dos olhos. A corrente deitada no pescoço nu, pescoço com cheiro de mais, blusa preta de sempre, paladar de casa. A minha poesia hoje tem cheiro de roupa que fica por muito tempo no fundo do armário, uma certa melancolia, a sensação boa do velho que continua ali, confortável. Sem pretensão, sem surpresa, sem novidade - só o que é, a verdade e o fato. Egoísta vontade, essa deu querer satisfazer o desejo do toque, tocar com os lábios, prelúdio de um beijo não dado que vira alimento da noite inteira. Esse direito não cabe a mim, mas pretenciosa que sou, permito-me ainda mais. Escrevo.  Sem esperar, espero um convite para ir àquele boteco, tomar a mesma cerveja com pouca cevada, parar no mesmo sinal que provocou todo o delírio da última vez. Espero que mande uma mensagem reticente, cheia de significado. Ou até que diga não querer, usando como justificativa a filosofia barata de um autor clichê - mas que agarre meus cabelos, minha nuca, arranque meu perfume para você, minha pele inteira sua.  Acho que você vai me desculpar, pela milionésica vez, por eu ventar desse jeito assim, quente e frio, leve e denso ao mesmo tempo. Vento que arrepia suave, mas sopra forte, meio desajeitado, fora de hora. Imprevisível, mas perene. Vento pra se deixar levar. Esse não é um pedido de nada. Nem um manifesto, menos ainda um recado. É só uma doce contemplação do mês completo, por ele permanecer existindo suavemente atemporal...  Sorte minha.

sábado, 9 de junho de 2012

Às sete horas;

De todos os fatos óbvios, o menor deles é explicitar as verdades sobre você. Eu invento CDs, diários, confessionários e botas de frio, meu arsenal em busca de ar. Sim, sobrevivo - mas sem grandes explosões. Diante do frio a gente poupa energia, mas poupa também devaneios que misturam vento quente no pé do ouvido, o gosto úmido da saliva evaporada saindo do lábio fervendo em chama. Contenho-me no sobretudo marrom, escondida sob todas as coisas que me fazem corar. Há de haver verdade nesse seu corpo silencioso, que me morde sem que você nem precise abrir a boca. PONTO. PARÁGRAGO. (Sete e meia). Há um lugar que é meu, poltrona preta de couro, onde eu sento e permito, sem restrições, que o jogo seja jogado. Do lado de dentro quente e frio são só o começo..

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Recado

Em 18 de Maio de 2012.
Querido ninguém.

Chego na minha paciência, no calmo e no doce, mastigando o prazer de ter o silêncio só para mim. A minha casa está ampla e fria, e eu gosto de sentir por debaixo das cobertas a paz que me trouxe trocar certos móveis de lugar. Aqui tudo é absolutamente meu, até os segredos que flutuam soltos sem mais qualquer tipo de ressalva. Sutiã, cara limpa, meias quentes, chá de maçã e o Garcia Márquez, todos compondo a minha poesia muda cheia de prazer do fim de tarde. Não quero notícias do lado de fora, porque honestamente, nesse momento, tudo que me interessa está aqui, a um palmo de minhas mãos sem anéis. De seres humanos bastamos eu e o senhor de 90 anos com fala latina arrastada.

Sento com as calças largas de um azul desbotado, pingos caindo do cabelo ainda por secar, a parte de cima à mostra para o nada. Experimento espiar uma lembrança que volta e meia me acorda com gosto de beijo e vontade, com língua tentando explicar o que eu nunca entendo. Permaneço entregue à inércia da não urgência dos fatos, e espero o devaneio ir. A gente vive aquilo que é preciso viver, e quando o preciso precisa de mais, a gente se reinventa. Eu ainda não decidi.

Em resposta à licença: Vez em quando escrevo contando com os olhos pequenos de alguém, que se dizia ler os pensamentos, aqueles meus exravagantes em lágrimas. Essa minha pretensão se confunde com uma certa liberdade em poder dizer sem falar, sem precisar ouvir de volta. Ou não ouvir, esperando. Sei que é confuso. Gosto de não ter que emitir sons, nem ter que encarar frente à frente, mas algo em mim desconhecido não me deixa estabelecer de fato um limite. Eu continuo mandando recados, mesmo sem saber. Sai da minha janela, em sinal de saudade nas madrugadas, uma fumacinha tênue cheiro doce e forte, cheiro lírio único em vaso na mesa de vidro, levando um desses recados para alguém sobre quem eu já não sei.

Querido Ninguém,... A partir de agora permito-me, só por hoje, um fim.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Noite escura, leva.

Essa noite mistura tudo que há em mim, turbante azul na cabeça, pés descalços no asfalto, um salto na ponta dos pés para a natureza morta ao redor. Na boca, o gosto maracujá com saudade. Vento quase morno, quase frio, janela aberta, música, luz vermelha, luz da lua. De repente, a minha garganta que não sabia mais gritar explode seu desejo de chegar até aí, seus ouvidos que não me querem ouvir. Eu grito mesmo assim, fazendo desenhos com a mão, com o corpo, e esses cabelos todos livres flutuando minha vontade incontrolável de voar. É tão bom sentir que dói...
Flashes vivos cortam meus sentidos na escuridão, abro os olhos e ainda lá está você puxando o meu pecoço para os seus dentes, o carro parado numa rua dessas qualquer. Voltei aos lugares dos passos tímidos sem mãos dadas, descontruí os medos, imortalizei a perda, e sobrou somente a dança livre, o esvoaçar do vestido longo, a lembrança do vestido que queria ter deitado no seu chão, e permaneceu em mim. Danço para a platéia livre dos viadutos e calçadas, danço para mim mesma, e assim me sinto inteiramente viva.
Divido uma avenida enorme com automóveis desesperados, sussurros surdos, um gato branco que só observa, chegando mais perto. Divido com olhos que sorriem, botas pretas, postes de iluminação romantizando a sujeira urbana da cidade que resolveu, só nesse segundo, parar. Dia bom para os justos, e para os sem vergonha de boa intenção.
Até ela, madrugada, dorme, e leva embora os devaneios concretos por debaixo da roupa, a permissão boa de sentir sem nem que você saiba. Quero um enterro digno para os meus bichos, mas eles insistem em habitar visceralmente meus impulsos impossíveis de conter. Não largo o osso. Quero pra mim o que foi meu, o que foi nosso e ainda existe. Enfurecido e calmo.