quinta-feira, 28 de maio de 2009

Primavera



Leve e doce ar de primavera. Sopro manso, toque macio de uma outra mão na pele aveludada. Frescor jovem dessa idade boa, do hálito morno de menta, da boca pintada de rosa, dos cachos jogados ao vento. A tarde se alonga cheia de cores, e o céu não tem fim. Notas cheias tocadas com melancolia saem de um violão que quase chora. Não tenho certeza de onde elas vêm, só sei que me invadem a alma e me enchem o peito de saudade... Mas não me interessa nenhuma explicação. O pulso é lento e o tempo espera. Sem pressa. Sem hora marcada. No caminho há uma cabana, e dentro dela uma noite longa...

terça-feira, 26 de maio de 2009

Curiosa..


Eu queria saber do que a felicidade é feita. Há um tempo, eu achava que era feita de dançar até doerem os pés, dias ensolarados e duas bolas de sorvete de chocolate sem culpa! Eu queria saber do que é feita a comida da minha vó e a oração forte da minha mãe, além da sensação boa de estar em casa. Queria saber do que é feita a perseverança. Ela e a paixão. A tal da paixão, que eu jurava de pé junto que era feita de borboletas na barriga, de bochechas vermelhas, de encantamento, de trocar as palavras e suar frio. Eu queria saber do que é feita a ansiedade, a falta de sono, o medo, o desespero, o descompasso. Mas queria saber também do que é feito o sonho. E pra mim, era tão claro, que a minha idéia de sonho costumava se misturar com minha idéia teimosa de realidade. Eu queria saber do que é feita a saudade - e do que é feito o remédio pra ela. Queria saber por que existe solidão e tropeço, e tudo isso que dói um monte, mas que não me deixa mais ser a mesma. Eu queria saber do que são feitas as possibilidades, aquelas coisinhas que surgem invisíveis, aos milhões, ao romper de cada dia. Queria saber do que precisa para ser forte, e seguro, e dono de si. Eu queria saber do que é feita a lágrima, se é mesmo dessa água que escorre e lava tudo. Queria saber do que é feito o riso das crianças. Eu achava que elas riam pra mostrar pra gente que a vida é muito maior e mais maravilhosa do que a gente erra em achar. Não acho que crianças são bobas ou ingênuas, muito pelo contrário. Acho que elas ficam assim quando crescem. Queria saber que sensação é essa de “tirar os pés do chão”, e do que é feita a prosódia daquelas pessoas que lêem histórias pra gente dormir. Queria saber do que é feito o senso de responsabilidade, a percepção de mundo, e as coisas sérias que fazem a gente se perceber crescendo. Queria saber do que é feito o vento que passa levantando a saia rodada da menina baiana, aquela mesma, que só pára para pedir a benção ao pai. Queria saber do que são feitos pontos finais. E noites com sensações novas. E gestos. E rimas. Eu queria saber do que é feita a gratidão, e queria saber o que fazer para que meus amigos percebessem o quão grata eu sou a cada um deles. Eu queria saber o que há por trás de cada perda e cada ganho. O que há dentro de cada abraço. O que há fora de mim. Queria saber do que é feito o reflexo, o espelho e o estranhamento. Queria saber do que é feito o encontro - e aquilo que os poetas chamam de “sopro de vida”. Eu queria saber do que é feito o samba e as rugas na cara. Queria saber do que é feita a minha indecisão. Queria saber do que é feita a superficialidade, o que a sustenta? Queria saber o que significa aquele verso, aquela frase, aquele impulso, aquilo que me causa taquicardia, e que ta perdido, cada vez mais longe. Eu, que ando querendo saber...

domingo, 24 de maio de 2009

Na casa de Dorival



O colorido sonoro do mar.

Calor abençoado, bocejo mole...

Não sei fazer poesia, porque não sei juntar as palavras.

Aliás, de frente pro mar, eu não tenho palavras e nem queria ter.

Se tivesse, quebraria o encanto da poesia natural sussurrada pelo vento.

"Cabelo cresce"

Cortei o cabelo e chorei arrependida. O que isso fala sobre mim? Não sei se é dificuldade de deixar as coisas irem, não sei se é uma relutância às mudanças quase bruscas demais, não sei se simplesmente eu não gostei, ficou feio mesmo e eu tenho motivos justos pra ter me arrependido. Odeio assumidamente cabeleleiros. Eles e suas tesouras cortantes, mutiladoras, que se pudessem, deixavam todas as mulheres carecas! Eles chegam com um ar disfarçado, são gentis e engraçados, e eu quase me convenço. Mas eu sempre desconfiei que, lá no fundo, deve haver um quê involuntário de confabulação e complô que misteriosamente guia as suas habilidosas mãos ao (nosso) desastre total. E é tão rápido que num piscar de olhos, aquilo que demorou anos e anos para estar ali, já era! Simples assim! Sem nenhum alarde, sem nem sequer uma preparação. Completamente indolor (pelo menos momentaneamente).
O meu cabeleleiro foi um amorzinho como sempre, me fez até sorrir. Falávamos do programa de um tal de Netinho na TV, do telefone que não parava de tocar, de como a minha casa ficava perto do salão. Distraída, quando fui ver, já estava sem uma das metades mais importantes de parte de mim!!! (Muito malandro.. tsc tsc)
Agora estou tentando manter a calma e olhar o lado positivo dos fatos, porque meu pai insiste em me dizer que eu tenho que aprender a fazer isso para ser feliz. Óbvio, ele não tinha cabelos grandes! Acho que mais que olhar o lado positivo, agora eu tenho é que me acostumar com essa “nova” eu... (Se pelo menos o cabelo fora tivesse levado uma listinha de outras coisas com ele... Mas levou, não. E, não satisfeito, ainda me deixou nessa aflição de passar o pente e sentir que falta algo.)
Odeio cabeleleiros (já disse isso?).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Romântica, sim!

Sou uma romântica tola. E acredito em relacionamentos feitos de Domingos no parque com bolinhas de sabão e algodão doce. Feitos de noites longas, luas cheias, poesias e todo o resto. Feitos de declarações de amor penduradas na porta da geladeira, rabiscadas no vapor do espelho do banheiro, colocadas secretamente em meio aos cadernos para serem achadas num momento despretensioso daquele dia agitado. Acredito, bem lá no fundo e sem querer assumir, nos infinitos contos melosos com pitada extra de açúcar. Odeio admitir, mas eles involuntariamente me fazem travar uma batalha exaustiva contra a lágrima prestes a cair (e depois que ela cai, desabo por inteira).

Sou uma completa ultrapassada. Acredito em relacionamentos feitos de par-ou-ímpar pra decidir entre japonês ou massa. Feitos de planos de 5 filhos, 4 semanas de lua de mel, 3 bolas de sorvete na mesma taça pra gente dividir, 2 pares de havaianas no pé da cama, 1 sonho maior que tudo no mundo! Acredito em relacionamentos feitos de gargalhadas com umas caretas bobas, banhos quentes com champanhe e espuma, excitação antecipada pelo fim-de-semana.

Eu sei o que as pessoas devem estar pensando. E para não dizerem que eu serei eternamente uma apaixonada só, devo dizer que acredito em tudo que é maravilhosamente real. Eu acredito nos relacionamentos que são feitos também de dias em que a voz fica mais alta, os nervos ficam à flor da pele e não se atende o telefone. Dias de chorar de raiva, de rasgar as fotos e as antigas juras de amor eterno guardadas na gaveta. Dias de não querer ver nem se ajoelhado, de não querer ouvir a voz, ouvir falar o nome! Acredito em relacionamentos feitos de momentos em que parece haver um abismo dividindo tudo. Em que há 5 mil motivos pra terminar de vez, 4 horas de dúvidas até decidir ligar ou não, 3 versões diferentes da mesma história, 2 mentiras que pareciam bobas, 1 porta na cara.

Eu sei que o amor não é feito só dos dias de sol. Mas quem disse que eu não quero correr o risco da chuva? Quero, sim! Quero tudo junto, se for de verdade, se valer a pena! E quero, fundamentalmente, jamais deixar de acreditar na beleza que há no encontro.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Frio!

Não sou fã de dias muito frios. As manhãs foram feitas para ter colorido, mas o que vejo ao abrir a janela bem cedinho do meu quarto (pra deixar o sol entrar) é uma variação das diferentes tonalidades de cinza. É uma triste constatação. Dias quentes, aprendi a achar ao longo do tempo, prometem algo mais. Acho que as pessoas ficam mais falantes, as crianças espirram menos, os tiozinhos que vendem sorvete na banca da esquina sorriem mais. A gente bebe mais água, vai mais ao parque e tem definitivamente mais disposição. Os dias quentes pra mim costumam vir com uma sensação intrinsecamente mais aquecida dos afetos (e eu me sinto mais bem humorada, devo dizer). Porém, não acho que dias frios são ruins, longe disso. Se tenho assumidamente uma preferência pelo calor, não deixo de admitir as maravilhas de ficar debaixo do cobertor, aquecida pelo tecido grosso e macio, envolvida por braços carinhosos que não desgrudam mais. Dias frios foram feitos pra gente ver que tem calor que precisa vir de fora, que o calor do outro também é bom (e como esquenta!). E é por isso que eu acho que se é que há mesmo um sentido escondido por trás dos dias mais gelados, que a gente não perca tempo só com aquecedores de plástico – que a gente se abrace mais, de um jeito mais longo, mais apertado, mais demorado, mais verdadeiro. Que a gente não dê só tapinhas nas costas e saia atrasado. Se for assim, eu faço até campanha pros dias frios!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Quadro

Não sei o que falta, se é que falta mesmo algo. Numa parede branca do meu apartamento tem um quadro que minha avó me deu. Nele, há vários sobrados finos e bem altos, pintados cada um de uma cor. Eles começam grandes, de perto, e vão descendo dos dois lados de uma rua de pedra que termina numa curva. Daí em diante eu já não sei mais. Os sobrados têm janelas grandes, como portas por onde se olha o mundo lá fora. Têm também telhadinhos marrons, que ficam debaixo de um céu azul. Eu moraria no meu quadro, apesar de não haver gente nele (acho que é ainda cedo, está todo mundo dormindo – ontem deve ter sido dia de Yemanjá e eles festejaram até tarde na beira do cais). Aliás, desconfio que há um cais virando a curva, e um mar tão grande que não cabe em si!

Enquanto olho o quadro, imagino uma moça descendo a rua (e ela parece feliz). Ela tem uma flor no cabelo, uma flor vermelha e grande, que combina com o colar de sementes vermelhas que carrega no pescoço. Ela traz uma sacola de frutas e fala com as senhoras que, de repente, aparecem na janela. E passa pelas crianças que gritam pela rua, pulam corda, se escondem atrás dos postes, desenham no chão a amarelinha. Ela veste um vestido de renda branco, com sandálias de couro que fazem parecer que ela está descalça. Fala com o senhorzinho de cabelo branco sentado na porta de um dos sobrados, que espera o outro chegar com o tabuleiro. Fala com uma moça jovem, de riso largo e andar rebolado, que desce pela rua chamando atenção dos rapazes. Agora ela pára no meio do caminho, porque de longe vem uma criança correndo ao seu encontro. É um molequinho cambaleante, que há pouco aprendeu os primeiros passos (mas já pensa que pode voar). Ele a alcança, a abraça, e ela lhe dá um beijo longo. O põe no colo e segue, agora em direção a um homem. Um homem com cheiro de peixe e molejo do mar. Com gosto de sal. Com ar de saudade....

Não sei ainda o que falta, se é que falta mesmo algo. Fico olhando o quadro e me pergunto...