Evasiva. Excruciante. Confissões para um copo de água, a dor de estômago aguda, a iminência da lágrima. Sinto na testa uma onda de tensão, que não sabe onde se inicia, nem sabe o seu fim. Culpa. Sono. Cadarços verdes nos pés de um moço imóvel, nem a mosca ousa lhe ser um incômodo. Estática, desejo que seja transmissível.
Eu precisava de um mantra, e vim aqui descobrir. No cheiro de livro novo, nas almofadas que abrigam bundas de todo mundo. Sou mais uma bunda, que carrega essa cabeça cheia de sentimento. Meus sentimentos hoje estão guardados na caixola.
Ando muda.
Vou sair pela porta, tomar um ônibus, descer na frente de casa com os pés cheios de bolhas do sapato alto. Pouco importa. Vou falar um bom dia, e outro bom dia, e contar como foi a tal festa, daquele jeito que todo mundo espera, e no fundo não quer ouvir. Vou continuar muda. Vou ter vontade de chorar. E vontade de rir, pelo segredo que carrego, uma satisfação em ser eu, apesar de tudo.
Se eu pudesse, moraria nessa almofada cor de rosa. Mas não posso. Preciso calçar os sapatos. E caminhar muda.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Ensaio do silêncio
Eu sou o silêncio, o vácuo, o não existir. Em dias assim, o aperto é mudo. A distância é tanta que nem enxergo o que há entre meus pés e o mundo. Nada basta, nem a vontade. Deram uma rasteira nela - sobrou apenas a teimosia triste.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Libélula
Você, que nao quis dizer até logo, nao quer logo menos, nem quis dizer logo mais. Você, que achou que eu não merecia respostas, ou achou que eu não merecia simplesmente saber, só pelo gosto da dor que o não saber traz. O desprazer. O des-saber. O dissabor.
Eu, que acordo atordoada com as possibilidades todas, e ao mesmo tempo nenhuma, que olho ao redor e procuro me distanciar do amargo da manhã, resquício do azedo de ontem à noite. Uma manhã que, como eu havia dividido com você, tinha feito promessas de me trazer o sol. E eu acreditei. Mas você não quis dizer, não quis ao menos saber.
O meu apartamento, com suas paredes ocupadas com meus mil falsos encantos, minhas caligrafias rasgadas pelos cantos, minhas bijouterias antigas de quinta categoria. A minha fotografia descartável, se confundindo agora comigo mesma - eu mesma, descartável. O meu apartamento, que escancarou as portas com sorrisos nem sei de quê, deixou entrar pelas janelas um cheiro nem sei de quê, mas que você sabe. E não diz. Tem tanta culpa quanto eu, apesar deu me saber tendo mais.
Sobra em mim um bicho, asas longas e vôo veloz, triste, que mora perto das águas.
Eu, que acordo atordoada com as possibilidades todas, e ao mesmo tempo nenhuma, que olho ao redor e procuro me distanciar do amargo da manhã, resquício do azedo de ontem à noite. Uma manhã que, como eu havia dividido com você, tinha feito promessas de me trazer o sol. E eu acreditei. Mas você não quis dizer, não quis ao menos saber.
O meu apartamento, com suas paredes ocupadas com meus mil falsos encantos, minhas caligrafias rasgadas pelos cantos, minhas bijouterias antigas de quinta categoria. A minha fotografia descartável, se confundindo agora comigo mesma - eu mesma, descartável. O meu apartamento, que escancarou as portas com sorrisos nem sei de quê, deixou entrar pelas janelas um cheiro nem sei de quê, mas que você sabe. E não diz. Tem tanta culpa quanto eu, apesar deu me saber tendo mais.
Sobra em mim um bicho, asas longas e vôo veloz, triste, que mora perto das águas.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Hopeless place
Depois da dor, vem uma música com batidas cheias de pulso e ritmo. Luzes, muitas luzes ao fundo, o manifesto do deixar-se ir. Eu, na minha pitada malagueta. Às vezes esqueço que ela existe, e quando reexperimento o seu sabor, arde. A vida se dá em momentos regados a uma bebida forte.
Cabelos soltos acompanhando o rodar das ideias, sangue das vísceras escorrendo na boca. Sede. Movimento nervoso, grito surdo, e frio. A Língua é deliciosa em horas como essa...
Tento compreender pensamentos hiperfuncionantes de um doce mistério. Faz todo o sentido, mas decifrar para além da conta faz perder o gosto. Quando há de haver necessidade? Quase pretenciosa, durmo ensopada de um sabonete que não sei o cheiro. É segredo.
Hoje acordo à convite do sonho, cansado de sonhar. Arrasto a barra no chão de uma saia cor abóbora, blusa cor abóbora também. Ney, fim da saudade, um pente pro cabelo e um pouco de sorte. A minha casa é pequena e não tem cara de madrugada.
We found love in a hopeless place.
ps- Ao som de.
domingo, 20 de novembro de 2011
Inacabado
Hoje alguém do meu passado reviveu, e trouxe o gosto de velhos hábitos. Entre oito e oitenta, sou mais para mais. Sempre fui. Estou naqueles dias em que nada serve, a música não encontra o volume certo, a camiseta apertada demais, o branco do vestido muito mais branco que quando escolhi, ontem. Vejo uma foto e outra, gosto, talvez. O tempo não passa, mas se passar, não tem o que responder. Agora deixo que me achem. Destino, é a sua vez.
Ao invés de crescer, fui encolhendo no meio do caminho. Nesse exato instante sou apenas uma anedota. Nem garbo, nem elegância, só um borrão para se ler entre um espirro e um assoar o nariz. Relembro incensos acesos molhados de vinho, dobraduras com frases minhas, noite inteira no sofá. Tudo longe, muito distante - outro continente. Suspirosa, percebo o quanto estou cansada de mim.
Se é para ter sentido, esqueceram de me avisar. Por enquanto, deixo em aberto. Inacabado.
Ao invés de crescer, fui encolhendo no meio do caminho. Nesse exato instante sou apenas uma anedota. Nem garbo, nem elegância, só um borrão para se ler entre um espirro e um assoar o nariz. Relembro incensos acesos molhados de vinho, dobraduras com frases minhas, noite inteira no sofá. Tudo longe, muito distante - outro continente. Suspirosa, percebo o quanto estou cansada de mim.
Se é para ter sentido, esqueceram de me avisar. Por enquanto, deixo em aberto. Inacabado.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Minha
De repente, sou uma moça. Sentada na sacada de um prédio velho, olhando para a rua sem nome. Gente sem nome que anda. Sentimento sem nome.
Ele fugiu com a Pagu, foi o que me disseram. O homem me encara sentado, com o seu barrigão gestante, criando a poesia.
Estou agora no segundo moça, açúcar ou adoçante? Mal contei as gotas, mal chorei as lágrimas. Corre discreto um teco de sol, um esboço de riso à saia azul. A cadeira permite espreguiçar, e eu dou tempo ao pensamento. Não estou muito longe, mas chego a Marte, vagarosa...
Eu gosto particularmente das pessoas, enquanto testo a acidez do café. Amarga estou eu, olhos sempre cheios, olhos tão vazios. Existe uma urgência no ar. Para lá, para nada. Na mesa ao lado, mãos, lápis, caderno, blusa branca. Nenhuma percepção. Só espero um soar, em vão. Tímida em meu desejo de esconder ainda mais, de escancarar em dividir. Não vou sair do lugar.
Corações partidos, partilho do medo de nunca mais ser. Uma trança num cabelo crespo que amarra os laços e custa mais que a intenção. Às vezes o melhor é calar. Sinto saudades de mim.
Minutos contados no relógio correm tempo nenhum. Quase tudo me faz chorar, o rosto bonito de uma velha cheia de cabelos brancos, com o lenço dourado agarrado ao pescoço. A evitação e a vontade. O pedaço da canção que fala a verdade. A escada.
Se pudesse, marcaria com grifos rosa choque quase todas as linhas desse livro de sebo. Todos os fatos da vida são muito curtos. Um piscar e já virararam luz.
A terceira moça não sou eu. Estendida sobre a cama, sonhos esgarçados e espera. Miragem...
Açúcar ou adoçante? Nem uma coisa nem outra. Sem nada.
Ele fugiu com a Pagu, foi o que me disseram. O homem me encara sentado, com o seu barrigão gestante, criando a poesia.
Estou agora no segundo moça, açúcar ou adoçante? Mal contei as gotas, mal chorei as lágrimas. Corre discreto um teco de sol, um esboço de riso à saia azul. A cadeira permite espreguiçar, e eu dou tempo ao pensamento. Não estou muito longe, mas chego a Marte, vagarosa...
Eu gosto particularmente das pessoas, enquanto testo a acidez do café. Amarga estou eu, olhos sempre cheios, olhos tão vazios. Existe uma urgência no ar. Para lá, para nada. Na mesa ao lado, mãos, lápis, caderno, blusa branca. Nenhuma percepção. Só espero um soar, em vão. Tímida em meu desejo de esconder ainda mais, de escancarar em dividir. Não vou sair do lugar.
Corações partidos, partilho do medo de nunca mais ser. Uma trança num cabelo crespo que amarra os laços e custa mais que a intenção. Às vezes o melhor é calar. Sinto saudades de mim.
Minutos contados no relógio correm tempo nenhum. Quase tudo me faz chorar, o rosto bonito de uma velha cheia de cabelos brancos, com o lenço dourado agarrado ao pescoço. A evitação e a vontade. O pedaço da canção que fala a verdade. A escada.
Se pudesse, marcaria com grifos rosa choque quase todas as linhas desse livro de sebo. Todos os fatos da vida são muito curtos. Um piscar e já virararam luz.
A terceira moça não sou eu. Estendida sobre a cama, sonhos esgarçados e espera. Miragem...
Açúcar ou adoçante? Nem uma coisa nem outra. Sem nada.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Três
Nem todos os dias são de ganhar, nem todos os dias são de perder. Encosto-me na cabeceira, frouxa dos pensamentos que se esvaem pelo vão entre a dor e o resto. Entro hoje num trem para lugar nenhum. Essa é a minha nova invenção, um trem que só vai, que não chega nunca. Aprendi a pilotar um trem. Sem temer. Sem abrir os olhos ou colocar as mãos. Pus um chapéu azul, distintivo no peito, e parti.
Foi grande a minha coragem, a minha picaretagem, o meu dançar bailarina - ponta dos pés , panturrilhas rígidas, bunda pra dentro, peito pra fora! ...E um, e dois, e três, e um! Infinito. Leveza é mera ilusão. Entro agora na minha geringonça atrapalhando até os passos. De pliés, passés e pointé, sobra só o tropeço. Engatinho. Não sei mais andar. Para trás das cortinas, é tudo escuro e frio.
Quem sabe hoje é o meu dia de sorte. Foi numa jogada de pôquer que barganhei as passagens.
Foi grande a minha coragem, a minha picaretagem, o meu dançar bailarina - ponta dos pés , panturrilhas rígidas, bunda pra dentro, peito pra fora! ...E um, e dois, e três, e um! Infinito. Leveza é mera ilusão. Entro agora na minha geringonça atrapalhando até os passos. De pliés, passés e pointé, sobra só o tropeço. Engatinho. Não sei mais andar. Para trás das cortinas, é tudo escuro e frio.
Quem sabe hoje é o meu dia de sorte. Foi numa jogada de pôquer que barganhei as passagens.
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