quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Agridoce

Restos de sentimentos espalhados pelas minhas aretas. Nada inteiro, tudo de ontem, ou antes de ontem, ou muito tempo atrás. Picadas de abelha na pele macia, curva maliciosa que peca em se insinuar. Eu como todo o mel. Cansada estou de deixar para depois. Tento voltar a dias que não eram assim, nada de céu, nem de inferno, apenas a tênue névoa de escuridão.
A gente aprende que deve ter bastante cuidado até mesmo para olhar. Eu, antes mesmo de olhar, já vou entrando. Acomodando-me por entre as paredes de pedra vermelha, tapetes, incensos, toda a umidade misturada à solidão. Enquanto penso e espero, sinto minhas mãos tomando forma de gota, escorro por entre costas de promessas de amanhã, fluidifico-me. Como se fosse algum tipo de segredo, experimento o chá sabor calor, hábito nada meu, mas que como todo o resto, por hoje já é minha segunda pele. Não sei o que quero, exceto toda a parte que eu sei, e não quero ouvir.
Há pedaços aqui pela metade, o tempo que crava seu destino com dentes afiados e não deixa escapar. Eu escrevo com meus próprios dedos, da mesma forma que ponho tudo na boca, de uma vez só, lambendo até onde há. Ainda sinto-me flutuante, dissolvida entre o existir e a probabilidade. A minha mente é uma casa, e nela moram pedaços de porém. Exalo sabor por todos os poros, e ele é agridoce. 

Teatrando

Por entre essas pedras, tantos as claras quanto as escuras grosseiramente gastas pelo tempo, escuto o silêncio de todas as pernas nervosas que viviam aqui. Se eu fechar os olhos e só ouvir, posso sentir as vozes entrando pelos meus ouvidos, as máscaras de riso e choro que cobriam os rostos, o tom meio teatral mesmo fora dos palcos. Há um cheiro de nada, e esse nada me remete aos dias antes de qualquer coisa que sei existir.
Saio do mergulho pronta a encarar qualquer tipo de negociação. Tropeço sorrisos por entre a gargalha extravagante que ecoa pelo tempo de "para sempre"; esse para sempre de agora.
Mandaram-me uma notícia, e ela urge! Vou comprar uma bicicleta e pedalar todo o caminho até Roma, porque eu tenho boca, e também porque disseram que lá há restos de vidas de um monte de gente. Porque há algo a se resgatar. Algo a se descobrir. E porque há uma estrada para outro lugar adiante.

31

Ele tem aqueles olhos que parecem que foram feitos de sorrir, mas que olham cheios de mistério. Eu precisava falar, e após a terceira, eu falei. Agora simplesmente fecho os meus olhos e danço conforme a batida da música que parece me sorrir com o canto da boca. Mon amour, ela diz. Amanhã já nem importa mais. 
Barris inteiros dividem o som das gargalhadas e o mastigar de azeitonas. Há a mesa e o caminho inteiro entre dois continentes. Minhas mãos não tocam além de muito longe, nem vão tocar, enquanto meus dedos congelam dentro da distância fria que naturalmente resolveu se impor. Ela, com seu desejo quase próprio. Tento não pensar para além do essencial.
Hoje já é depois do dia seguinte, e a poesia simplesmente se dissipou em meio ao leve ar de curta irritação. Os olhos agora contêm rugas mal disfarçadas, mal contadas pelo tempo. Não há desejo de partilhar, ou dividir, não há desejo nem ao menos de emprestar os fones de ouvido para que saiba a música que me faz invisivelmente sorrir. É simplesmente tarde, a minha paciência dormiu no meio do caminho e resolveu não acordar nunca mais.
Conto horas dentro do chacoalhar escorregadio da estrada, sem ter o menor poder de decisão. Há uma longa espera oscilante sobre o que exatamente sentir. Pouco me importa. Quem vai dormir agora sou eu...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Onde canta o sabiá

A minha terra tem palmeiras, tem guardachuvinhas em copos de bebida cor limão, tem ovos mexidos no café da manhã. Tem um violão que ri e chora, e se mistura ao corpo da mulher despretenciosa, saia florida e cachos generosos no cabelo, um avantajado sorriso pedindo uma noite de estrelas. Mulher de cor escura e pele quente. Um sabor maresia nos ombros largos, o desfrute da madrugada clara. Sem medo. Sem perda nem espera. Só o que há e é real, sem amanhã.
A minha terra tem sabiá e a saborosa feijoada do Domingo em família, uma ilha cheia de sol e preguiça. Tem também abacaxi com hortelã batidos fresquinhos, e as batatas roxinhas da mãe da Adélia. Tem um guri que levanta antes do raio pensar em acordar, e sai por aí cantando com suas curtas pernas, seus passos largos. Seus heróis de papelão, suas refeições de frutas roubadas do pé. Ouve ao longe gritos de corre-menino, mas ainda assim, insiste em controlar as horas boas da vida.
A minha terra tem o mar calminho pela janela do quarto, três ou quartos jeitos de se dizer que sente falta, ou sente saudade, um Senhor dos grandes abençoando qualquer um que simplesmente abra os braços. Tem um monte de homens com pernas grossas, ou pernas de pau, fazendo não sei exatamente o quê atrás de uma bola, e meninas novinhas adquirindo marcas deixadas pelo sol extravagante no seus corpinhos esbeltos, esculturais. Tem a voz daquele moço, que já não é tão moço mais, mas que ainda seduz com seus imcríveis olhos azuis. Essa minha terra, especialmente ela, sagrada e profana, cheia de mistérios, som e poesia.
A minha terra tem meu nome cravado no solo, raiz fixa e forte, frondosa cobertura que me deixa espreguiçar na sombra. Tem o gosto do meu suor, do meu perfume importado, do meu cheiro de todo dia pela manhã. Tem meus sorrisos e meus apertos, minha habilidosa capacidade de não saber, nunca, mas sentir. Tem todas as minhas paixões intensamente, exageradamente, deliciosamente vividas. Só lá sou o que há de melhor para ser em mim.                       
Lá, onde canta o sabiá. 

Road

Imersa numa maravilha que, de tão branca, chega a ser azul. É uma rota sem fim... Do céu caem pedaços de luz e som, flocos de novidade. É bom não estar só no meio da imensidão.
Aqui estamos, apostando as fichas nas possibilidades. Sem planos, sem nem ao menos conhecimento de causa; apenas uma aquecida chama de nos percebermos vivos. Tentando não levar o relógio e sua batida inabalável tão a sério, me pego com mãos dentro de um ninho, aninhando a mim mesma em ombros que acabei de descobrir. Todos partilhando do mesmo sentimento excitante e mágico do desconhecido que está logo ali, cinco minutos à frente.
Há no meio disso tudo um pouco do de sempre, cansado e velho, mas há também a promessa desse sabor antes nunca experimentado. Vou apostar no doce que pode escorrer pelo canto da minha boca, lambuzar os meus dedos e fazer com que eu volte a ser ridicularmente criança. Não sirvo para essa coisa toda de ser grande, maior ainda. É simplesmente uma roupa justa demais para o meu desejo de ser livre.
(...com a música certa até meus pensamentos fazem todo sentido....)

Sol e som

É como se aqui eu simplesmente pudesse ter tudo. Ser tudo. E a vida não tivesse pressa, porque antes dela o sol precisa nascer e se pôr, sem nenhum mistério, apenas magia. Uma boa comida vinda do mar, com muita manteiga e muita sorte. É assim que eu devoro o último raio de sol. As cores por trás das lentes, à frente dos olhos, as milhares de faíscas borbulhando desejos. Com os pés congelados, nada como ter o coração aquecido pela incrível obra de arte que a natureza insiste em construir. Um deleite bom de simplesmente apreciar, a gratidão pelo pulsar ritmico de cada dia. 
No meio da noite, silêncio e madrugada viram dois lobos grandes, de ruído cansado. Melodia triste, com cheiro de estrada, de botas sujas de barro. Nessas horas, a solidão faz todo o sentido. Uma gaita chora os devanios do negro vento que corre sonoro avisando sua chegada, sua partida. Nada fica. Concluo poeticamente o pensamento dos poderosos deuses do olimpo - logo ali:  é uma espera, uma eterna busca pelo amanhecer... 

... Entra por debaixo da porta um cheiro de pão fresco e quente. Sinto que já é hora de abrí-la. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tesekur ederim

É possível se ter todas as horas agora. Aproveito meu instante para simplesmente ver, olhar os olhos que falam todas as histórias através de rugas cobertas por pedaços de pano preto. Enquanto sinto, peço para não mais ser, nunca mais, tão dura comigo mesma. A verdade é que só aqueles olhos misteriosos sabem...
Gente silenciosa que engrandece a alma só por existir. Por passar entre os outros, tentando parecer não estar ali, mas impondo suntuosamente a sua presença. Eu praticamento respondo em reverência ao chamado inevitável da oração cantada em forma de música trêmula viajante pelos autofalantes. Na voz de um homem que deve, sim, ter bigodes, deve ter uma expressão forte, deve certamente usar aquele chapéu. Não que sejam todos iguais. Simplesmente por serem únicos nas suas formas de pertencer. Estou envolvida ao extremo. 
Eu, pernas pequenas, surpreendo-me ainda com uma enorme percepção de estranhamento sobre quem eu sou. Nada faz sentido - apenas a potente sensação de poder ser. Nesse pedaço fechado de parte do mundo em que me encontro agora correm soltos pelo ar os sentimentos que me devoram sutilmente, sem nenhuma pretensão de se fazerem compreender. Para além da necessidade de estendimento está o que realmente é. Hoje e há milênios...