sábado, 26 de janeiro de 2013

Senhora



Só.

Pessoas simplesmente tristes, aquelas que carregam a tristeza da vida, se reconhecem instantaneamente. E se atraem magneticamente pro mesmo centro comum, o que beira a compreensão mútua de algo que não se diz, não se explica. Com o tempo, a gente se convence de que as pessoas tristes gostam da solidão. Imprescindem dela. Padecem de um medo extrapolado de alguma coisa. Todas compartilham um medo secreto, cúmplices de algo que nao sabem ao certo o que é. Talvez, penso eu, seja medo da ignorância de estar feliz, esse fardo pesado demais, que extravasa da cobrança excessiva sobre si mesmo. Um narcísico boicote da própria lucidez.
Não há como dividir apenas por se estar disposto. Para dividir de fato é preciso saber fazê-lo, antes mesmo de querer. A gente se atrai pelo similar ao nosso escancarado no rosto do outro, a mesma possibilidade de amar o próprio erro, o próprio acerto, a ausência ou não de paz. Cada um tem o relacionamento que pode ter, diante de si mesmo. O outro é uma consequência.

Seguimos todos.

E só.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Pela metade

Se eu ainda soubesse escrever, falaria de coisas que não aconteceram comigo, aquelas que fariam de mim alguém melhor. Alguém com quem você gostaria de dormir todas as noites.
Se eu ainda tivesse calma, fosse suficientemente obscura e doce, escreveria uma canção com o seu nome e me mudaria para Viena, mala, cuia e cuíca, passagem apenas de ida, pouca roupa, pouco tudo.
Se eu ainda tivesse coragem. Se eu tivesse paz. Se eu tivesse escolha.


Resta-me, apenas, o som reticente do seu silêncio, meu luto daquilo que não sou, explicitamente sabido - e gostaria de ter sido.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Encontro

Eu não tenho freio. Quando dou a partida só páro quando tudo esgota. Você e essa pintinha no pescoço, pescoço que eu mordo sem pena nem paz. E não me procura, enquanto eu finjo não esperar, pra ouvir aquele jazz com copo americano, carona de um carro grande demais pra mim. Pequeno pro resto inteiro.
A minha poesia dá tons de uma saudade inventada, o pressuposto é completa mentira e eu me faço de desentendida. A mocinha de bons costumes falsos. A mulher que não cabe em si.  Dura aquela vez só, nenhuma outra além, pra não estragar o que se pode criar para depois, umas promessas livres perdidas na madrugada morna, a gente conhecendo pessoas que nos convidam a mais. Você concorda com tudo, agarrado à minha cintura, como se pudesse ser meu. Mas não é.
Os fins já não importam, nunca importaram coisa alguma, temos todas as horas até que se acabem. E elas duram esse pedaço de papel.  Num desvio de caminho, esquina de qualquer lugar, por acaso da vida houve um encontro. Ponto. Daí, pula-se uma linha, como se pula a expectativa.  ... Sem continuação. Nem necessidade. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

_KEEP WALKING_

Lembro do dia em que meu samba chamou, eu ainda sem muita certeza se podia usar a cor inteira a meu favor. A voz rouca à meia luz, copo de vidro sujo de batom cor de rosa. Lembro do dia em que vesti o preto, por fora e por dentro, mas na manhã seguinte fingi que não queria mais e me fui. Sentada no divã, deixei que escorresse.  A vida repousa ao meu lado com uma cantiga nostálgica, doce, permitindo que tudo seja. Eu, fantasiada de mais. Acreditando ser mais. Até cessar. Lembro de noites calmas com braços ao redor, eu pensando querer para o resto das horas aquela mesma paz. Volta e meia sonho com ela, desliza uma falta resignada da tão falada paz que, eu sei, dentro de mim não há de existir.  Hoje não há lembranças, nem de antes, nem de depois, porque meu corpo paralisou diante do caos. Roupas pelo chão,  rabiscos pelas paredes nuas, eu, por toda a parte aos pedaços. Fluida. Fria. Vazia... Lembro do pôr do sol nascente, a dúvida entre um beijo e mais. Lembro de roupas brancas e apitares noturnos, chapas de pulmões carentes de ar. Como o meu. Lembro da promessa morna sussurrada baixinho no pé do ouvido, uma voz doce vinda do peito, acarinhando o que se mantém, apesar de. Forte. Firme. Cheio de luz. Lembro de tudo que não deixou de ser, nem de existir, e que cresce. Gigante. Maior que duas vezes eu. Por isso acredito. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Andorinha



Amanhã me deito com ela, Yemanjá em suas águas. Minhas mãos estão livres e agarram todo o palpável do ar. Esse, definitivamente, não foi um ano ruim, mas diante do empurrão no precipício, beira do pânico e desespero, decidi fechar os olhos e fluir. Nos braços de outro alguém. Ele segura uma criança no colo, e eu desejo, só por um segundo, que haja mais.
Diante das ondas que dançam, calmaria e devoção, curvo-me por ser mulher, permissão para entrar e sentir. A água do mar é doce, e corre inteiro o meu corpo sem pressa. Esse corpo que pede mais, canta e chora a dor de se sentir vivo. Penso ainda nela, cravando minha pele com linhas firmes, a letra da poesia que habita, mas dorme. Tudo meu entregue ao misterioso vão entre o óbvio e o nem tanto assim. Eu, que resolvi andorinhar por aí, sem me preocupar com a ventania. Meu turbilhão já rodopia um sem-cessar sem fim. Por isso mesmo eu continuo.
Palpável mesmo é o fato de cada dia. Decidi não me abster. 

Voando vou...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Querida. Clarice.

Comigo funciona falar menos, até mesmo não falar. Há um ano e meio, um pouquinho mais, minha boca não podia abrir tamanho o espanto em me descobrir assim, corações palpitantes, uma tatuagem com a poesia brasileira, uma peça de teatro em que transitamos pela casa dela mesma. Esse último Domingo comemos massa e tomamos vinho, gente estranha e próxima, lado a lado, tentando a sutileza da intimidade de outros dias, de antes.
Adiantem os relógios, e adiantem também a vida, porque cada dia é novo e diferente do outro. Minhas mãos contam mil histórias, e eu as carrego dentro dos bolsos, por entre as pernas, debaixo das toalhas de mesa. Um anel igual, o presente. Familiar mesmo é a sensação de olhar as ruas correndo através da janela, enquanto todo o resto pára. Absorta, sou engolida por essa fumaça que traz pedaços do caminho todo, recordações de gostos, cheiros, piruetas no meio da estrada, biquinis de lacinho em dias de sol. Coisas pelas quais vale a pena ficar.
Acarinho meus pensamentos, aceito o convite, porque na verdade não sei bem como ir. Hoje, meu coração quer apenas dividir a sobremesa e dormir em paz.

domingo, 7 de outubro de 2012

Plaut Vincent

Casebres coloridos, livros indecentes, meu francês péssimo. Alguém toma aulas e me dá uma lição, e para ser simpática com meu lado travesso, retribuo a gentileza com pitadas de alemão. É freneticamente charmoso esse papo quase chá das cinco, quase você-bem-entendeu. Verdade mesmo é que me sinto na Rússia, eu, com essa literatura barata, com esse cheiro pagão. Meus pensamentos rodopiam reticências, ora estou alheia, ora quero voltar, mas insisto em não fazer exatamente parte. Misterioso lugar, esse que chamarei de meu. Alguém para entrelaçar língua qualquer. Antes dele -lugar- hei de conhecer todos os outros.  ...Viena foi feita para mim.