sábado, 28 de agosto de 2010

Qual é? Tenho usado meias palavras enfeitadas, mas o que eu quero na verdade gritar é que eu tenho raiva! Os 65 % são meus, e me bastam. Abri as portas pra deixar sair – que o vento leve e eu não precise mais ser inundada da lembrança pelo cheiro toda vez que entrar por elas. Afinal, isso aqui é meu – e do que há em mim eu não abro mão.

Uma voz lá dentro me pede calma, me faz contar até 10, depois até 20, depois o alfabeto de trás pra frente. Já na metade eu me perco, e perco também o motivo que me fez explodir. Mas dessa vez não quero mais me comprar um chocalho – nada de distração, eu quero sentir inteiro, cuspir pra fora e virar do avesso o me vem derretendo por dentro. Sou exagerada, tenho poucas medidas de contenção, e é por isso mesmo que dessa vez eu tou pouco me lixando! Eu tenho o direito de sentir!!! (,,,E todos os palavrões pouco reproduzíveis aqui).

Pronto, agora estou névoa, leve e livre, pronta para outra!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ouriço-do-mar

Estou exausta. A energia se esvai de mim como fiapos de carpetes velhos. Tenho que comprar uma caneta – há três dias acordo com a incumbência de comprar uma caneta, mas meu desejo é dormir um pouco mais. Faz tanto frio que eu tenho medo de me mexer, e o calor do meu peito, por si só, não é capaz de aquecer tudo o que está exposto. Parei de viver para viver outra coisa – impressa tão ditatorialmente a ponto de me fazer enfrentá-la mesmo sem vontade, sem tesão nem expectativa. Intimidada, flutuo de um canto a outro sem nem saber como cheguei daqui pra lá. Meu pensamento-liquidificador apita avisos que envolvem canetas e ligações não atendidas, e eu desejo simplesmente não precisar decidir.

Essa noite sonhei com um lugar onde eu estava só, e finalmente senti que meus músculos pararam de me mostrar o quanto eles estavam bravos comigo – mas o sonho (ou o sono) durou cinco minutos, e já logo era um dia pronto pra tudo de novo. Agora relutante, automatizo passadas duras e tento afastar qualquer resquício de lembrança boa que se insinua atraente ao meu redor. Nada adianta, meu riso está escondido e eu aceito, por fim, as nuvens cinzas e o humor preto-e-branco. Qualquer coisa vai ficar pra depois.

Uma idéia fixa e neurótica na cabeça, histeria podada por um sermão sem fundamento, brigas com relacionamentos diários insustentáveis, grito da boca pra dentro, ausência de canção. Eu já sei o que está acontecendo. Alguém quer falar comigo, por favor? Meia hora depois, e eu estou no mesmo lugar. Outra manhã, e o mesmo lugar.

Estou ouriço-do-mar. Estou ouriço e espeto.

domingo, 15 de agosto de 2010

Brisa fria e leve, luzes mil numa avenida que não tem fim. Trilha sonora e o pensamento longe, a decisão de caminhar em meio à gente, experimentando a vida de dentro passar pelo mundo de fora, lúcido e acelerado. Uma estrela única, solitária, ilumina o céu quase inteiro, e eu sigo tentando identificar o que há por trás de cada rosto que surge e desaparece, e caminha em direção oposta a minha. Uma menina com cabelos pretos e ar misterioso escolhe três ou quatro filmes pra assistir mais tarde em casa. Nenhum convite. Uma banca montada com brincos de todas as cores do arco-íris atrai a atenção de uma pessoa ou outra. Um homem dorme no chão, envolto em papelões úmidos e chega a ser confundido com a paisagem. Essa é a cidade grande, prometida. Ainda estou indecisa quanto a uma coisa, qualquer coisa, todas as mínimas coisas evidentes a meu respeito. Olho pra luz que pisca e dita o fluxo ritmado dos automóveis, em suas filas grandes e intermináveis. Está verde, e eu acho que é pra mim, minha nova verdade. Sigo em frente, disposta a me deixar ser levada pelo vento, pela curiosa sensação de simplesmente ir.

O moço com braços bonitos deixa o skate cair por uma ladeira e quando percebe já é tarde demais. Uma vez na ladeira, tem que chegar lá em baixo, pra depois voltar e continuar a correr, mais rápido que nunca. Um vestido com listas grossas cor de amora passa e deixa o vento levá-lo para dançar. Pares de sapatos cheios de estilo tropeçam uns nos outros. Duas mãos dadas me lembram que têm coisas que eu quero, sim, mentira minha fingir que não. Paro, porque agora eu não posso passar, separada por faixas brancas riscadas no chão do rapaz com cara de negócios e mãos cheias de papéis. Respiro fundo e olho acima para as construções sem fim. Me sinto pequena, mas também infinita num espaço particularmente menor e mais denso que o projetado aos meus olhos. Qual será a distância de lá até aquilo que me fará feliz?

Decido que quero tomar um café sentada numa poltrona grande e confortável, que me afunda naqueles tais pensamentos sem nenhuma razão. Insuportável funcionamento acelerado da mente. Hipnotizada e disrítmica tento entender aquilo que ultrapassa qualquer entendimento, enquanto mareio os olhos cansados... Sinto o gosto marcado e denso do grão moído, amargo a sensação teimosa do meu apelo a mim mesma. Mas por fim, sou vencida pela brisa doce e fria da avenida grande, que me toma outra vez e me mostra que há pulso quente e forte emergindo de mim.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Revelações

Meus dias têm quarenta e oito horas, duas faces com batons diferentes. Estou cindida inteira, intensa em duas de mim teimosamente manifestas – ora ao sol, ora à lua. Transito entre os pólos camuflada do meu desejo, antípoda que sou e refém do que está submerso e eu não sei. Mas eu afloro, potencializando papeis intransponíveis e absolutos na busca de coisas que por vezes não representam exatamente tudo que há aqui. Sou o contrário de mim mesma, habito cordialmente esse corpo cheio de pernas que cambaleiam em volta da dúvida sobre o que seguir. Me perco a cada esquina, e esporadicamente experimento a sensação do fôlego do entardecer, na possibilidade de algo novo, fresco, úmido. Me fluidifico e vou.

Deixo os pensamentos não reveláveis permearem o lugar que lhes pertence, o dedo sobre a boca confirmando que por ali eles não saem. Sem palavras possíveis, despeço-me com o que me resta de “expositível”, ainda pouco penetrado de culpa e medo. Quando durmo, já aí acordo, e sendo outra inicio um outro capítulo com língua, cílios, mel e poema.

Sede(de)sentir

Estamos todos sedentos por sentimento, por mais que finjamos que não. Por isso compramos bilhetes com acesso a histórias de amor e nos inundamos em finais felizes clichês pra aquecer o coração de esperança. Por essa e toda a vontade de sentir é que rimos ao ouvir noticiada uma loucura inusitada de alguém extravasando emoção, e tomamos como extraordinário qualquer feito cotidiano que extrapole a macicez oca do comportamento diário embotado, calejado, infeliz. Desejamos ir ao cinema em tardes de Quarta-Feira, com sanduíches enormes e lenços de papel; lemos o mesmo best-seller, nos deixando surpreender com o desenrolar previsível, importado de outro mundo que nada tem a ver com o nosso; pagamos caro por qualquer insight que nos faça crer que não estamos vazios por dentro, deitados num divã de frente a um quadro com cores cruas. A verdade é que tudo isso, comercializável ou não em sua essência, se torna alimento do qual somos consumidores insaciáveis, secos que estamos da fonte de nós mesmos.

Li um dia desses que começos são sempre felizes. Todo começo é assim, por definição, feliz – e se você é teimoso o suficiente, faz com que os finais também o sejam. Não sei se acredito exatamente nisso enquanto vivência isenta de frustração, arrependimento e dor, mas de certo modo concordo que temos uma capacidade flexível de nos lembrarmos marcadamente das situações que delimitam “ciclos” e se tornam significativas a ponto da gente achar que ali inquestionavelmente foi “feliz”. A questão nisso tudo, porém, é pensar sobre o que está entre uma coisa e outra, o percurso. O meio é o agora, e dele ninguém costuma falar muito.

Meios são maçantes, lineares, pouco excepcionais. São como uma pena a se pagar (a moeda de troca), uma prova dura até que alcancemos o grand finale, explosão quase orgástica dos cinco minutos em que algo realmente acontece – e é tão imensa que se torna perceptível mesmo a quilômetros de distância. São poucos e raros esses momentos na vida – acho que já vivi um ou dois. Nessa hora, não há nem recordação do que poderia ter sido gosto amargo na boca, dor latente de feridas crônicas, noites cansadas sem sono, antigas novas manchetes diárias repetidas no jornal impresso a cada manhã. São momentos em que futuro não chega a ser nem uma possibilidade, porque a hipótese de que ele pudesse existir estragaria a imensidão da sensação real, presente e onipotente de plenitude que está sendo experimentada. Sim, estamos loucos por essa forma de sentir! Perseguimos ela a todo custo... Daí vem a busca incessante que cega tudo o que envolve o caminho, pois miramos obsessivamente em algo que está longe demais, foge ao nosso controle e que definitivamente não podemos ver.

Há, porém, um suspiro leve e bom em meio a esse desespero compulsivo, uma carta na manga do destino: de quando em vez, ao sermos pegos por um calor no peito que nos faz suar e borboletar a barriga, nos dispomos a abrir os olhos e perceber as cores vivas que nos cercam. Somos provisioramente curados da passividade indiferente, nos damos alta dos serviços

de “elocubração sobre o nada”, e nos enchemos de pressa para degustar todos os sabores novos e intensos que antes pareciam simplesmente não ter sal. Não é tão comum quanto eu gostaria, mas definitivamente faz parte do meio, porque, apesar de não marcar nada excepcional, é aí que sentimos verdadeiramente o quanto estamos vivos – é quando eu sinto que é maravilhoso estar viva, e que por todas as possibilidades inimagináveis vale a pena continuar a viver, cada dia por vez, com tudo aquilo que a vida pode me trazer.

Saudade.


A minha mãe se despede de mim ao telefone mandando eu ser feliz. Eu me emociono com o pedido. A voz é a mesma de quando ela pede para eu me agasalhar antes de sair de casa, ou não esquecer de tomar o café da manhã. Mas algo de verdadeiramente forte impulsiona o seu sentimento, e ele me toma de uma forma real e grandiosa. Sorrio, porque sempre achei bonito sorrir, sorrir e sentir.


Estranho assim, sinto junto ao riso algo doer em mim. Pensei em dizer que não me dói exatamente o fato de estar longe de casa, apesar da saudade que não me deixa esquecer um dia sequer que ela está aqui e me acompanha. Mas a verdade é que a dor é a própria saudade, disfarçada de bagagem fina, incômoda, latente, querendo me vencer pelo cansaço. Eu canso, mas continuo - mesmo com o peito vazio e os olhos cheios.


A música já dizia que eu tinha que preparar o coração, mas sempre achei que a idéia de destino, por si só, já seria soldado suficiente para combater qualquer tipo de sopro mais forte vindo das terras de lá. Maior engano não há. Eu sou o próprio vento vindo de lá, estou ligada umbilicalmente ao mar, à sonoridade do mormaço, ao misterioso ritmo que permeia todas as coisas, silenciosa e pesadamente. Sou feita daquele barro, que imprime em mim toda a forma de ver e sentir. Respiro fundo e me encho de orgulho da minha natividade. Mas ainda assim, estou longe...


Sei que a minha mãe reza baixinho todos os dias, e sei também que sua oração não falha. Sei que independente dos passos que eu dê, migalhas aos montes estão espalhadas pelo caminho por onde passei, e eu consigo voltar a qualquer hora sem sequer pestanejar sobre qual direção pegar. Sei que não importa quanto frio eu passe, quão exposta à chuva eu esteja, ainda assim, há braços do tamanho do universo esperando o meu corpo, com aconchego, proteção, chá de canela e mel.


Eu vim descobrir o mundo, e vi que ele tem prédios que tocam o céu. Mas o céu mesmo está lá. Cheio das minhas memórias com riso alto e extravagante, saia rodada e chinelos de dedo, e a certeza de sim, (mãe), ser feliz.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sábado à noite

Todo o mistério por trás dos olhos pretos, o tecido preto, de cima a baixo, mas suficientemente indecente para revelar a pele. O nome de um homem. A repetição na boca cor de carne, o mexer enlouquecedor do corpo sob efeito de alguma droga endógena ainda não descoberta. Pulsação ritmada. O olhar pouco intimidado enquadra cada pedacinho para não perder um detalhe sequer. Provocação muda e mútua. Três por quatro só pra um, revelado pouco a pouco sob luzes fugazes. Ensaio de aproximação, um passo dissimulado, fingindo ser tímido demais. Todos os risos por dentro, risos no canto da boca, junto com a bebida escorrendo, insinuando o tamanho do desejo.

Sapatos altos, deixando alguns muitos centímetros de bônus, que parecem inflar também o ego. De vez em quando é irrecusável – e simplesmente bom. O jogo vai ficando forte, assim como as mãos, os braços e o resto . O cheiro chega, a textura e tudo mais, desfazendo a postura arrogante. A dança agora é quase um convite, explícita, conscientemente irresistível. Sem necessidade de palavras, é sim.

O sol amanhece cheio de ironia, com uma potente sensação das delícias não reveláveis do Sábado à noite...