sábado, 20 de abril de 2013
Diariamente
Tenho pegado leve, meditado, nascido com o sol. Tenho experimentado deixar que entrem as coisas simplesmente pelas portas estarem abertas, e não pela necessidade impositiva de entrar. Tenho escrito pouco. Talvez por medo do que há em mim - vai saber. Leio. Tomo sundae de café da manhã. Faço anotações não pertinentes num caderninho que eu batizei de viagem. Fotografo crianças.
Ando mastigando suavemente a calma das escolhas adiadas, da inércia de não tomar nenhuma brusca decisão. Nesse exato momento existe absolutamente tudo, o depois só virará agora daqui a pouco, e quando ele chegar, eu vivo. Não faz diferença ter pressa.
Tomo banho de mar, saio com cheiro de cura. Talvez um dia o sentido simplesmente aconteça, se faça presente sem nem notar, beije doce a minha nuca e vá com o vento devanear para além. Essa é a minha busca do diariamente. Enquanto isso, deito na areia branca, deixo o sol acarinhar minha pele salgada, e me permito apenas ser.
Diariamente
Tenho pegado leve, meditado, nascido com o sol. Tenho experimentado deixar que entrem as coisas simplesmente pelas portas estarem abertas, e não pela necessidade impositiva de entrar. Tenho escrito pouco. Talvez por medo do que há em mim - vai saber. Leio. Tomo sundae de café da manhã. Faço anotações não pertinentes num caderninho que eu batizei de viagem. Fotografo crianças.
Ando mastigando suavemente a calma das escolhas adiadas, da inércia de não tomar nenhuma brusca decisão. Nesse exato momento existe absolutamente tudo, o depois só virará agora daqui a pouco, e quando ele chegar, eu vivo. Não faz diferença ter pressa.
Tomo banho de mar, saio com cheiro de cura. Talvez um dia o sentido simplesmente aconteça, se faça presente sem nem notar, beije doce a minha nuca e vá com o vento devanear para além. Essa é a minha busca do diariamente. Enquanto isso, deito na areia branca, deixo o sol acarinhar minha pele salgada, e me permito apenas ser.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Oh, sweetie.
Todas elas jovens, cabelos amarelo-claros, carnes duras, duríssimas, esbanjando o ar displicente dos "vinte só daqui a um ano". Despretenciosas em seus shortinhos jeans curtos demais, umas curvas que ainda não se sabem ser, camisetas com frases comuns, cores vibrantes, nenhum corte francês. Elas deitadas ao sol, implícita sabedoria da escolha de acordar e... "We'll see". O mundo inteiro nesse pedaço microscópico de tempo, as primeiras vezes definitivas que mudarão para sempre em cinco minutos. Ou talvez menos.
Elas e seus sotaques embriagados, sorrisos embriagados, corpos lúcidos ávidos por mais. O meio termo - meio Nabokov, meio Machado de Assis - nem tanto, nem tão pouco; um estilo, assim, mais para peculiar. Peles brancas bronzeadas, óculos escuros maiores que os olhos água do mar, até grandes demais, eu diria, mas que sustentam a teimosia em causar discretamente a necessidade de se virar para olhar novamente. Seguram garrafas com bebida de marca famosa descolada, mascam chicletes, compram chocolates de qualidade ruim. Gargalham ruidosamente, escandalosamente, e nem entendem ao certo o por quê - simplesmente esbanjam uma sensualidade doce, dessas que estampam outdoors com propaganda de pasta de dente.
No fim, todos os nomes soam iguais, mas elas se preservam o direito de não conflituosamente fazerem parte da massa - essa massa seleta de pernas saltitantes em volta das pool tables, sob palquinhos de bandas tocando ao vivo um rock antigo da época em que nem tinham nascido, ao redor das piscinas turvas com gente demais. Coquetéis, conversinha mole, grande exercício intuitivo da ausência de regras e obrigações. Um infinito hall de possibilidades...
Quando amanhecer, ainda serão as mesmas, esperarão alguns outros anos, trocarão os shorts, as camisetas e a intuição. Olharão no espelho as tatuagens com marcas do tempo. Tomarão café da manhã pela manhã, farão invariavelmente escolhas, talvez casa, comida, crianças, banquinhos rústicos no jardim. Usarão protetor - fator no mínimo 30 - antes de irem ao supermercado. Ensinarão as regras, porque cultivarão o desejo genuíno de passar adiante. Elas, agora identificadas por nome e sobrenome, aprenderão a respeitar o tempo calmo das coisas conforme passa a vida, e sempre serão, em algum lugar de si mesmas, as sábias mocinhas deitadas ao sol...
Elas e seus sotaques embriagados, sorrisos embriagados, corpos lúcidos ávidos por mais. O meio termo - meio Nabokov, meio Machado de Assis - nem tanto, nem tão pouco; um estilo, assim, mais para peculiar. Peles brancas bronzeadas, óculos escuros maiores que os olhos água do mar, até grandes demais, eu diria, mas que sustentam a teimosia em causar discretamente a necessidade de se virar para olhar novamente. Seguram garrafas com bebida de marca famosa descolada, mascam chicletes, compram chocolates de qualidade ruim. Gargalham ruidosamente, escandalosamente, e nem entendem ao certo o por quê - simplesmente esbanjam uma sensualidade doce, dessas que estampam outdoors com propaganda de pasta de dente.
No fim, todos os nomes soam iguais, mas elas se preservam o direito de não conflituosamente fazerem parte da massa - essa massa seleta de pernas saltitantes em volta das pool tables, sob palquinhos de bandas tocando ao vivo um rock antigo da época em que nem tinham nascido, ao redor das piscinas turvas com gente demais. Coquetéis, conversinha mole, grande exercício intuitivo da ausência de regras e obrigações. Um infinito hall de possibilidades...
Quando amanhecer, ainda serão as mesmas, esperarão alguns outros anos, trocarão os shorts, as camisetas e a intuição. Olharão no espelho as tatuagens com marcas do tempo. Tomarão café da manhã pela manhã, farão invariavelmente escolhas, talvez casa, comida, crianças, banquinhos rústicos no jardim. Usarão protetor - fator no mínimo 30 - antes de irem ao supermercado. Ensinarão as regras, porque cultivarão o desejo genuíno de passar adiante. Elas, agora identificadas por nome e sobrenome, aprenderão a respeitar o tempo calmo das coisas conforme passa a vida, e sempre serão, em algum lugar de si mesmas, as sábias mocinhas deitadas ao sol...
sábado, 23 de março de 2013
Baby
Primeiro eu compro uma vitrola e acho um professor para tomar aulas de francês. Caminho meio sem rumo por uma avenida cheia de prédios, exagero nos cafezinhos que me permitem pequenas pausas, aquelas que a gente faz apenas para respirar e sentir. Assisto Tolstoi num fôlego só, fixo a atenção em um específico olhar. Escolho mil vinis, conto as novidades de ontem, tento segurar a mão. O sabor do gesto, o toque calmo quase sem tocar.
À noite eu desejo dormir e sonhar um sonho bom. Sou inteira trivialidades, um Manoel de Barros barroco, sutil nas desimportâncias, tipo as batatinhas roxas de uma poesia que mudou a minha vida.
A vida. O mar. O vai-e-vém.
Chego em casa e ela ainda tem cheiro de ontem, tiro os sapatos, ouço a mesma música repetidas vezes. Deixo tudo escuro, tenho saudade, chego a discar. Parece que me falta verbo. Há algo que não sabe sair, engasga, retorce, e fica. Por fim, descubro gostar da solidão...
De vendas nos olhos, aponto um lugar aleatório onde devo estar, entro na casa antiga com nome de flores, molho os pés com pingos leves da chuva forte. Aguardo a resposta de algo que precede à pergunta. Exercito parar. Silenciar. Ser, e não.
A vitrola, o francês, a escrita falha, um coquetel de auto revelações legitimando pequenas verdades sobre mim (verdades estas que para saber, basta olhar). No fundo eu aguardo o escancarar de uma vez só, o encontro de ouvidos gentis e dispostos, mãos, boca, ausência de medo. Para que eu possa caminhar junto. Para que eu mande embora e deixe ficar.
À noite eu desejo dormir e sonhar um sonho bom. Sou inteira trivialidades, um Manoel de Barros barroco, sutil nas desimportâncias, tipo as batatinhas roxas de uma poesia que mudou a minha vida.
A vida. O mar. O vai-e-vém.
Chego em casa e ela ainda tem cheiro de ontem, tiro os sapatos, ouço a mesma música repetidas vezes. Deixo tudo escuro, tenho saudade, chego a discar. Parece que me falta verbo. Há algo que não sabe sair, engasga, retorce, e fica. Por fim, descubro gostar da solidão...
De vendas nos olhos, aponto um lugar aleatório onde devo estar, entro na casa antiga com nome de flores, molho os pés com pingos leves da chuva forte. Aguardo a resposta de algo que precede à pergunta. Exercito parar. Silenciar. Ser, e não.
A vitrola, o francês, a escrita falha, um coquetel de auto revelações legitimando pequenas verdades sobre mim (verdades estas que para saber, basta olhar). No fundo eu aguardo o escancarar de uma vez só, o encontro de ouvidos gentis e dispostos, mãos, boca, ausência de medo. Para que eu possa caminhar junto. Para que eu mande embora e deixe ficar.
Baby
Primeiro eu compro uma vitrola e acho um professor para tomar aulas de francês. Caminho meio sem rumo por uma avenida cheia de prédios, exagero nos cafezinhos que me permitem pequenas pausas, aquelas que a gente faz apenas para respirar e sentir. Assisto Tolstoi num fôlego só, fixo a atenção em um específico olhar. Escolho mil vinis, conto as novidades de ontem, tento segurar a mão. O sabor do gesto, o toque calmo quase sem tocar.
À noite eu desejo dormir e sonhar um sonho bom. Sou inteira trivialidades, um Manoel de Barros barroco, sutil nas desimportâncias, tipo as batatinhas roxas de uma poesia que mudou a minha vida.
A vida. O mar. O vai-e-vém.
Chego em casa e ela ainda tem cheiro de ontem, tiro os sapatos, ouço a mesma música repetidas vezes. Deixo tudo escuro, tenho saudade, chego a discar. Parece que me falta verbo. Há algo que não sabe sair, engasga, retorce, e fica. Por fim, descubro gostar da solidão...
De vendas nos olhos, aponto um lugar aleatório onde devo estar, entro na casa antiga com nome de flores, molho os pés com pingos leves da chuva forte. Aguardo a resposta de algo que precede à pergunta. Exercito parar. Silenciar. Ser, e não.
A vitrola, o francês, a escrita falha, um coquetel de auto revelações legitimando pequenas verdades sobre mim (verdades estas que para saber, basta olhar). No fundo eu aguardo o escancarar de uma vez só, o encontro de ouvidos gentis e dispostos, mãos, boca, ausência de medo. Para que eu possa caminhar junto. Para que eu mande embora e deixe ficar.
À noite eu desejo dormir e sonhar um sonho bom. Sou inteira trivialidades, um Manoel de Barros barroco, sutil nas desimportâncias, tipo as batatinhas roxas de uma poesia que mudou a minha vida.
A vida. O mar. O vai-e-vém.
Chego em casa e ela ainda tem cheiro de ontem, tiro os sapatos, ouço a mesma música repetidas vezes. Deixo tudo escuro, tenho saudade, chego a discar. Parece que me falta verbo. Há algo que não sabe sair, engasga, retorce, e fica. Por fim, descubro gostar da solidão...
De vendas nos olhos, aponto um lugar aleatório onde devo estar, entro na casa antiga com nome de flores, molho os pés com pingos leves da chuva forte. Aguardo a resposta de algo que precede à pergunta. Exercito parar. Silenciar. Ser, e não.
A vitrola, o francês, a escrita falha, um coquetel de auto revelações legitimando pequenas verdades sobre mim (verdades estas que para saber, basta olhar). No fundo eu aguardo o escancarar de uma vez só, o encontro de ouvidos gentis e dispostos, mãos, boca, ausência de medo. Para que eu possa caminhar junto. Para que eu mande embora e deixe ficar.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Ao acaso
Eram eles, os dois, amantes de uma voz quase grave e uma voz quase doce, sorrateiramente dispostos ao convite da madrugada.
Aquela música pela noite, ela mesma repetidas vezes, meio triste, meio alegre, meio todas as coisas em uma só.
Eram novos, e velhos, e vivos e frágeis, e fortes de um jeito que nem se sabiam ser. Fizeram um pacto silencioso, cúmplice e desajeitado, abençoados pelas desculpas da escuridão. Sinal da cruz, cruzados dedos, viajaram desamedrontados à procura do tempo e de mais. Esse mais amorfo, perene no ar, cheio de significado - e só. Eram mil sentidos, nada submerso, cheiro vivo e flor da pele, flores à beira da estrada, onde pararam para fazer amor. A saia florida, e nela cabiam as pernas de gente, era toda ela gente sem tirar nem pôr. Ele de tênis amarelo, pretensioso rapaz com sonhos altos, barba por fazer, destino por fazer, toda a verdade sem nenhuma pressa em se realizar.
Eram, os dois, amantes da mentira de uma noite onde tudo era real. Poesia dialogada num convite para trinta anos depois, com filhos pelados correndo pro mar. Não haverá mar, nem criança, nem anos após - a não ser esses segundos restantes. Ela mora numa casa no alto, pequena e fechada, um mapa na parede com todos os lugares do mundo em que precisa estar. Já ele mora numa casa no chão, escadas de vários degraus, madeira boa, discos clichês espalhados pela cama que dá vontade de dormir e acordar.
O mesmo batom dos lábios dela habita o pescoço dele, e os dois repetem a mesma cantoria melancólica do amanhecer. Viajam de volta nas horas deixando migalhas por todo o caminho a ser percorrido solitário num futuro distante onde não mais se saberá o sentido. O som daquele CD de nome voraz. Tudo é voraz, até que a luz invada as retinas e sinalize que chegou ao fim. Pés descalços. Saudade. Os dois, amantes da vida como ela é, deixam o resto inteiro ao acaso.
Aquela música pela noite, ela mesma repetidas vezes, meio triste, meio alegre, meio todas as coisas em uma só.
Eram novos, e velhos, e vivos e frágeis, e fortes de um jeito que nem se sabiam ser. Fizeram um pacto silencioso, cúmplice e desajeitado, abençoados pelas desculpas da escuridão. Sinal da cruz, cruzados dedos, viajaram desamedrontados à procura do tempo e de mais. Esse mais amorfo, perene no ar, cheio de significado - e só. Eram mil sentidos, nada submerso, cheiro vivo e flor da pele, flores à beira da estrada, onde pararam para fazer amor. A saia florida, e nela cabiam as pernas de gente, era toda ela gente sem tirar nem pôr. Ele de tênis amarelo, pretensioso rapaz com sonhos altos, barba por fazer, destino por fazer, toda a verdade sem nenhuma pressa em se realizar.
Eram, os dois, amantes da mentira de uma noite onde tudo era real. Poesia dialogada num convite para trinta anos depois, com filhos pelados correndo pro mar. Não haverá mar, nem criança, nem anos após - a não ser esses segundos restantes. Ela mora numa casa no alto, pequena e fechada, um mapa na parede com todos os lugares do mundo em que precisa estar. Já ele mora numa casa no chão, escadas de vários degraus, madeira boa, discos clichês espalhados pela cama que dá vontade de dormir e acordar.
O mesmo batom dos lábios dela habita o pescoço dele, e os dois repetem a mesma cantoria melancólica do amanhecer. Viajam de volta nas horas deixando migalhas por todo o caminho a ser percorrido solitário num futuro distante onde não mais se saberá o sentido. O som daquele CD de nome voraz. Tudo é voraz, até que a luz invada as retinas e sinalize que chegou ao fim. Pés descalços. Saudade. Os dois, amantes da vida como ela é, deixam o resto inteiro ao acaso.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Senhora
Só.
Pessoas simplesmente tristes, aquelas que carregam a tristeza da vida, se reconhecem instantaneamente. E se atraem magneticamente pro mesmo centro comum, o que beira a compreensão mútua de algo que não se diz, não se explica. Com o tempo, a gente se convence de que as pessoas tristes gostam da solidão. Imprescindem dela. Padecem de um medo extrapolado de alguma coisa. Todas compartilham um medo secreto, cúmplices de algo que nao sabem ao certo o que é. Talvez, penso eu, seja medo da ignorância de estar feliz, esse fardo pesado demais, que extravasa da cobrança excessiva sobre si mesmo. Um narcísico boicote da própria lucidez.
Não há como dividir apenas por se estar disposto. Para dividir de fato é preciso saber fazê-lo, antes mesmo de querer. A gente se atrai pelo similar ao nosso escancarado no rosto do outro, a mesma possibilidade de amar o próprio erro, o próprio acerto, a ausência ou não de paz. Cada um tem o relacionamento que pode ter, diante de si mesmo. O outro é uma consequência.
Seguimos todos.
E só.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Pela metade
Se eu ainda soubesse escrever, falaria de coisas que não aconteceram comigo, aquelas que fariam de mim alguém melhor. Alguém com quem você gostaria de dormir todas as noites.
Se eu ainda tivesse calma, fosse suficientemente obscura e doce, escreveria uma canção com o seu nome e me mudaria para Viena, mala, cuia e cuíca, passagem apenas de ida, pouca roupa, pouco tudo.
Se eu ainda tivesse coragem. Se eu tivesse paz. Se eu tivesse escolha.
Resta-me, apenas, o som reticente do seu silêncio, meu luto daquilo que não sou, explicitamente sabido - e gostaria de ter sido.
Se eu ainda tivesse calma, fosse suficientemente obscura e doce, escreveria uma canção com o seu nome e me mudaria para Viena, mala, cuia e cuíca, passagem apenas de ida, pouca roupa, pouco tudo.
Se eu ainda tivesse coragem. Se eu tivesse paz. Se eu tivesse escolha.
Resta-me, apenas, o som reticente do seu silêncio, meu luto daquilo que não sou, explicitamente sabido - e gostaria de ter sido.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Encontro
Eu não tenho freio. Quando dou a partida só páro quando tudo esgota. Você e essa pintinha no pescoço, pescoço que eu mordo sem pena nem paz. E não me procura, enquanto eu finjo não esperar, pra ouvir aquele jazz com copo americano, carona de um carro grande demais pra mim. Pequeno pro resto inteiro.
A minha poesia dá tons de uma saudade inventada, o pressuposto é completa mentira e eu me faço de desentendida. A mocinha de bons costumes falsos. A mulher que não cabe em si. Dura aquela vez só, nenhuma outra além, pra não estragar o que se pode criar para depois, umas promessas livres perdidas na madrugada morna, a gente conhecendo pessoas que nos convidam a mais. Você concorda com tudo, agarrado à minha cintura, como se pudesse ser meu. Mas não é.
Os fins já não importam, nunca importaram coisa alguma, temos todas as horas até que se acabem. E elas duram esse pedaço de papel. Num desvio de caminho, esquina de qualquer lugar, por acaso da vida houve um encontro. Ponto. Daí, pula-se uma linha, como se pula a expectativa. ... Sem continuação. Nem necessidade.
A minha poesia dá tons de uma saudade inventada, o pressuposto é completa mentira e eu me faço de desentendida. A mocinha de bons costumes falsos. A mulher que não cabe em si. Dura aquela vez só, nenhuma outra além, pra não estragar o que se pode criar para depois, umas promessas livres perdidas na madrugada morna, a gente conhecendo pessoas que nos convidam a mais. Você concorda com tudo, agarrado à minha cintura, como se pudesse ser meu. Mas não é.
Os fins já não importam, nunca importaram coisa alguma, temos todas as horas até que se acabem. E elas duram esse pedaço de papel. Num desvio de caminho, esquina de qualquer lugar, por acaso da vida houve um encontro. Ponto. Daí, pula-se uma linha, como se pula a expectativa. ... Sem continuação. Nem necessidade.
sábado, 15 de dezembro de 2012
_KEEP WALKING_
Lembro do dia em que meu samba chamou, eu ainda sem muita certeza se podia usar a cor inteira a meu favor. A voz rouca à meia luz, copo de vidro sujo de batom cor de rosa. Lembro do dia em que vesti o preto, por fora e por dentro, mas na manhã seguinte fingi que não queria mais e me fui. Sentada no divã, deixei que escorresse.
A vida repousa ao meu lado com uma cantiga nostálgica, doce, permitindo que tudo seja. Eu, fantasiada de mais. Acreditando ser mais. Até cessar.
Lembro de noites calmas com braços ao redor, eu pensando querer para o resto das horas aquela mesma paz. Volta e meia sonho com ela, desliza uma falta resignada da tão falada paz que, eu sei, dentro de mim não há de existir.
Hoje não há lembranças, nem de antes, nem de depois, porque meu corpo paralisou diante do caos. Roupas pelo chão, rabiscos pelas paredes nuas, eu, por toda a parte aos pedaços. Fluida. Fria. Vazia...
Lembro do pôr do sol nascente, a dúvida entre um beijo e mais. Lembro de roupas brancas e apitares noturnos, chapas de pulmões carentes de ar. Como o meu. Lembro da promessa morna sussurrada baixinho no pé do ouvido, uma voz doce vinda do peito, acarinhando o que se mantém, apesar de. Forte. Firme. Cheio de luz.
Lembro de tudo que não deixou de ser, nem de existir, e que cresce. Gigante. Maior que duas vezes eu. Por isso acredito.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Andorinha
Amanhã me deito com ela, Yemanjá em suas águas. Minhas mãos
estão livres e agarram todo o palpável do ar. Esse, definitivamente, não foi um
ano ruim, mas diante do empurrão no precipício, beira do pânico e desespero,
decidi fechar os olhos e fluir. Nos braços de outro alguém. Ele segura uma
criança no colo, e eu desejo, só por um segundo, que haja mais.
Diante das ondas que dançam, calmaria e devoção, curvo-me
por ser mulher, permissão para entrar e sentir. A água do mar é doce, e corre
inteiro o meu corpo sem pressa. Esse corpo que pede mais, canta e chora a dor
de se sentir vivo. Penso ainda nela, cravando minha pele com linhas firmes, a
letra da poesia que habita, mas dorme. Tudo meu entregue ao misterioso vão
entre o óbvio e o nem tanto assim. Eu, que resolvi andorinhar por aí, sem me
preocupar com a ventania. Meu turbilhão já rodopia um sem-cessar sem fim. Por
isso mesmo eu continuo.
Palpável mesmo é o fato de cada dia. Decidi não me abster.
Voando vou...
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Querida. Clarice.
Comigo funciona falar menos, até mesmo não falar. Há um ano e meio, um pouquinho mais, minha boca não podia abrir tamanho o espanto em me descobrir assim, corações palpitantes, uma tatuagem com a poesia brasileira, uma peça de teatro em que transitamos pela casa dela mesma. Esse último Domingo comemos massa e tomamos vinho, gente estranha e próxima, lado a lado, tentando a sutileza da intimidade de outros dias, de antes.
Adiantem os relógios, e adiantem também a vida, porque cada dia é novo e diferente do outro. Minhas mãos contam mil histórias, e eu as carrego dentro dos bolsos, por entre as pernas, debaixo das toalhas de mesa. Um anel igual, o presente. Familiar mesmo é a sensação de olhar as ruas correndo através da janela, enquanto todo o resto pára. Absorta, sou engolida por essa fumaça que traz pedaços do caminho todo, recordações de gostos, cheiros, piruetas no meio da estrada, biquinis de lacinho em dias de sol. Coisas pelas quais vale a pena ficar.
Acarinho meus pensamentos, aceito o convite, porque na verdade não sei bem como ir. Hoje, meu coração quer apenas dividir a sobremesa e dormir em paz.
Adiantem os relógios, e adiantem também a vida, porque cada dia é novo e diferente do outro. Minhas mãos contam mil histórias, e eu as carrego dentro dos bolsos, por entre as pernas, debaixo das toalhas de mesa. Um anel igual, o presente. Familiar mesmo é a sensação de olhar as ruas correndo através da janela, enquanto todo o resto pára. Absorta, sou engolida por essa fumaça que traz pedaços do caminho todo, recordações de gostos, cheiros, piruetas no meio da estrada, biquinis de lacinho em dias de sol. Coisas pelas quais vale a pena ficar.
Acarinho meus pensamentos, aceito o convite, porque na verdade não sei bem como ir. Hoje, meu coração quer apenas dividir a sobremesa e dormir em paz.
domingo, 7 de outubro de 2012
Plaut Vincent
Casebres coloridos, livros indecentes, meu francês péssimo. Alguém toma aulas e me dá uma lição, e para ser simpática com meu lado travesso, retribuo a gentileza com pitadas de alemão. É freneticamente charmoso esse papo quase chá das cinco, quase você-bem-entendeu. Verdade mesmo é que me sinto na Rússia, eu, com essa literatura barata, com esse cheiro pagão. Meus pensamentos rodopiam reticências, ora estou alheia, ora quero voltar, mas insisto em não fazer exatamente parte. Misterioso lugar, esse que chamarei de meu. Alguém para entrelaçar língua qualquer. Antes dele -lugar- hei de conhecer todos os outros.
...Viena foi feita para mim.
sábado, 6 de outubro de 2012
Ponto e vírgula
Gosto doce da bebida forte, mar de rosas sobre o chão. Tua. Ainda não anoiteceu e eu desejo estar em outro país. Bethania grita a sua rouquidão, dançando lá de pés descalços, e eu retribuo em minha sala vazia com móveis demais. Rodopios e lágrima. Ziguezagueio uma conversa convincente, pitadas nuas de um bem querer que só se contradiz. Volátil.
Meus dias não comportam mais maquilagens, saltos altos, olhos oblíquos - e coisa e tal - e eu ignoro a presença incômoda do espelho. Penso em escrever no meu corpo uma frase que signifique tudo que não sou por falta de coragem - quem sabe assim, por insistência da imagem, cada palavra comece a valer mais que mil, me convencendo, por fim, do fato. A verdade é que tudo está à flor da pele, mas eu me cubro com panos demais. E nem está tão frio...
Gosto das páginas à espera, outro mundo onde não estou, mas posso entrar sem ser notada. Entro. Sento no sofá de couro verde, espio todas as frases entrecortadas. Minha perspectiva é inteira íntima, dou cadência ao que deve ser, sem realmente me preocupar. Apago as luzes e já não faço parte. Nessas horas sei ao certo que não gostaria de viver aqui.
Sem novidade qualquer, confetes na varanda, lua cheia ou promessa pra depois. Arrastada, vejo pedaços meus ao chão especulando a primavera através das janelas altas. Inalcançáveis. Na minha boca, ecos do gosto doce. A voz. A lágrima. O ziguezaguear. E toda a verdade íntima e nua que, por ora. só eu sei...
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Sem fim
Eu aturo todas as verdades frias sem me manifestar. Gosto de brincar de ser dura comigo mesma, pra dar pano pra esquizofrenia por fora de mim. Ora, em meio ao caos que não respeita o limite de lugar algum (nem para além das Américas, como ouvi no telenotícias) assumo a pedante posição de alguém que luta apenas por um outro dia qualquer: acordar, banho frio, clic clic contra a mesa, tiquetaquear de horas sem fim. Meu maior bem é a poesia, que nesses tempos dorme. Sono profundo e bom.
Não sei se por cansaço ou sorte, tenho difiuldade em me impressionar com as coisas ditas impressionáveis. Eu, figurinha clichê cheirando a meia idade. Impressionante mesmo é quando se está em absoluto silêncio e algo te faz sentir. Sejam 324 metros ou 1,57. Tanto faz. A verdade é que enigmaticamente sonhos se constroem e desabam diariamente, e eu os vejo ser como se sentada na calçada da porta de casa à espera do vento que tarda em passar. O meu mundo gira em torno de um grande vazio, órbita de lugar nenhum. Sou mar de desassossego, e enquanto penso sobre o nada, deixo-me banhar da dúvida sobre o que realmente importa. Nunca há de ter fim.
Esses dias aprendi a admirar copos de leite num arranjo só, porque nem todas as primaveras são feitas de lírios.
Não sei se por cansaço ou sorte, tenho difiuldade em me impressionar com as coisas ditas impressionáveis. Eu, figurinha clichê cheirando a meia idade. Impressionante mesmo é quando se está em absoluto silêncio e algo te faz sentir. Sejam 324 metros ou 1,57. Tanto faz. A verdade é que enigmaticamente sonhos se constroem e desabam diariamente, e eu os vejo ser como se sentada na calçada da porta de casa à espera do vento que tarda em passar. O meu mundo gira em torno de um grande vazio, órbita de lugar nenhum. Sou mar de desassossego, e enquanto penso sobre o nada, deixo-me banhar da dúvida sobre o que realmente importa. Nunca há de ter fim.
Esses dias aprendi a admirar copos de leite num arranjo só, porque nem todas as primaveras são feitas de lírios.
sábado, 22 de setembro de 2012
Quando eu não te dava paz
O meu descompasso hoje me dá uma rasteira e me joga no chão, sem que eu tenha beijos doces antes de adormecer. Quando ele deixou de ser o melhor de mim? A minha indecisão, minha falta de tato, a madrugada rindo da minha cara com lágrimas, e uma grande epopéia sem sentido algum. Eu insisto em colocar alguém que não precisa de nada disso em meio ao meu turbilhão esquizofrênico. Louca. Eu sou louca. Deveria ter coragem de estar coerentemente só, mas eu quero mais sentir, sangue, suor, suspiro... E cheiro doce. Eu tenho saudade diária. Por isso amarro aos meus pés, com ataduras que machucam os punhos, alguém de alicerces muito mais fortes que os meus, mas que (por pena ou não sei o quê) insiste em me deixar acreditar...
Aguardo uma reintrodução frente ao espelho, esse é o meu nome, uma idade que não importa, uso dois brincos em cada orelha, um sempre maior que o outro, e tenho comido frango todos os dias dessa semana por preguiça de cozinhar. Aprendi a escrever quando pequena, mas esqueço as palavras todas as vezes que algo de fato me tira o fôlego. Às vezes eu gosto apenas de ficar em silêncio, mas na maioria das vezes eu grito. Grito um desespero que não tem a menor razão. Nada em mim tem harmonia, porque eu não entendo ao certo a forma de juntar tudo numa coisa só. Tenho sapatos fechados e abertos, mas gosto mesmo de andar pisando o chão de areia. Sei sorrir e chorar, mas faço com maestria os dois ao mesmo tempo, riso e choro por motivo algum. Gosto de alguém, não sei como gostar, mordo e assopro o tempo inteiro, quando no fundo eu só queria mesmo era morder todas as noites... Noites inteiras. Fazer a coisa certa sempre dá errado pra mim.
O meu desbalanço me dá arrepios, me cobre de frio, dessa sensação de falta, da vontade de olhar dentro dos olhos e simplesmente ser.
Se ainda há como saber, minha boca agridoce aqui espera...
Aguardo uma reintrodução frente ao espelho, esse é o meu nome, uma idade que não importa, uso dois brincos em cada orelha, um sempre maior que o outro, e tenho comido frango todos os dias dessa semana por preguiça de cozinhar. Aprendi a escrever quando pequena, mas esqueço as palavras todas as vezes que algo de fato me tira o fôlego. Às vezes eu gosto apenas de ficar em silêncio, mas na maioria das vezes eu grito. Grito um desespero que não tem a menor razão. Nada em mim tem harmonia, porque eu não entendo ao certo a forma de juntar tudo numa coisa só. Tenho sapatos fechados e abertos, mas gosto mesmo de andar pisando o chão de areia. Sei sorrir e chorar, mas faço com maestria os dois ao mesmo tempo, riso e choro por motivo algum. Gosto de alguém, não sei como gostar, mordo e assopro o tempo inteiro, quando no fundo eu só queria mesmo era morder todas as noites... Noites inteiras. Fazer a coisa certa sempre dá errado pra mim.
O meu desbalanço me dá arrepios, me cobre de frio, dessa sensação de falta, da vontade de olhar dentro dos olhos e simplesmente ser.
Se ainda há como saber, minha boca agridoce aqui espera...
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Breve ensaio sobre a tristeza
Não há solidão o suficiente.
Queria ficar deitada aqui, ouvindo o silêncio da noite, olhando o céu de estrelas, quieta, até o momento de morrer. De parar de ser. Como num respiro que deixa de existir, uma hora respira, na outra não respira mais, esquece de respirar e fim.
Não há lugar distante de fato, uma distância verdadeira, perto de lugar nenhum. Onde ainda não há mundo, e tudo é apenas prelúdio. Paz. Onde não existe sensação de falta, porque não se conhece para além do essencial, e o essencial está impregnado à necessidade de ser...
Não há solução para o amor. E sobre ele, todas as verdades já foram ditas. A gente sente ou não sente. Simples assim. O resto é lágrima que volta ao mar.
Queria ficar deitada aqui, ouvindo o silêncio da noite, olhando o céu de estrelas, quieta, até o momento de morrer. De parar de ser. Como num respiro que deixa de existir, uma hora respira, na outra não respira mais, esquece de respirar e fim.
Não há lugar distante de fato, uma distância verdadeira, perto de lugar nenhum. Onde ainda não há mundo, e tudo é apenas prelúdio. Paz. Onde não existe sensação de falta, porque não se conhece para além do essencial, e o essencial está impregnado à necessidade de ser...
Não há solução para o amor. E sobre ele, todas as verdades já foram ditas. A gente sente ou não sente. Simples assim. O resto é lágrima que volta ao mar.
Breve ensaio sobre a tristeza
Não há solidão o suficiente.
Queria ficar deitada aqui, ouvindo o silêncio da noite, olhando o céu de estrelas, quieta, até o momento de morrer. De parar de ser. Como num respiro que deixa de existir, uma hora respira, na outra não respira mais, esquece de respirar e fim.
Não há lugar distante de fato, uma distância verdadeira, perto de lugar nenhum. Onde ainda não há mundo, e tudo é apenas prelúdio. Paz. Onde não existe sensação de falta, porque não se conhece para além do essencial, e o essencial está impregnado à necessidade de ser...
Não há solução para o amor. E sobre ele, todas as verdades já foram ditas. A gente sente ou não sente. Simples assim. O resto é lágrima que volta ao mar.
Queria ficar deitada aqui, ouvindo o silêncio da noite, olhando o céu de estrelas, quieta, até o momento de morrer. De parar de ser. Como num respiro que deixa de existir, uma hora respira, na outra não respira mais, esquece de respirar e fim.
Não há lugar distante de fato, uma distância verdadeira, perto de lugar nenhum. Onde ainda não há mundo, e tudo é apenas prelúdio. Paz. Onde não existe sensação de falta, porque não se conhece para além do essencial, e o essencial está impregnado à necessidade de ser...
Não há solução para o amor. E sobre ele, todas as verdades já foram ditas. A gente sente ou não sente. Simples assim. O resto é lágrima que volta ao mar.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Caleidoscópio
A menina balança aqui fora na rede, sozinha, livro aberto na página 44, pensamento longe. Nem sei ao certo se ela está aqui. Do lado de dentro marido e mulher deitados à cama, ele rindo de uma cena do filme de ação, que na verdade nem teve tanta graça assim, mas é uma risada boa de ouvir. Ela controla sua vontade de falar, porque os outros querem estar em silêncio - e por bem ou por mal há de se respeitar essa vontade.
Primeiro ela que é mais jovem, se banha na piscina, uma braçada aqui, outro giro ali, mergulhos fundos segurando o fôlego. E haja fôlego para levar tanta incerteza dentro de si. Um ar querendo provocar as paredes, as lâmpadas, os lustres, os guardanapos das mesas e o porta copos também - só não quer mesmo ser vista por gente, esse exercício complicado - pelo menos não explicitamente. Ela sai da água caminhando feito sereia, metade do corpo pra dentro, outra metade pra fora, levitando as dobrinhas saudáveis (para não dizer fartas) que carrega entre um e outro braço. Senta-se de pernas cruzadas, tipo borboleta, e fica olhando o mar, por horas, parada. Imóvel por fora... Somente por fora.
O marido, pai, senhor de cabelos grisalhos, oclinhos pequenos e fofos, esse é um grande coração imenso. Duas biritinhas das boas para aquecer o corpo, porque a alma já vem aquecida da vida. Tem somente duas expressões, a severa e esta que está usando aqui. Sorte de todo mundo que a severa ficou em casa, trouxe apenas a outra, que mesmo com chuva e vento faz tudo transparecer mais que perfeito.
A mulher, mama, beata, senhora do destino que teima em carregar suas horas - e a dos outros - sob sua própria vontade. Escolhe um caminho de tropeços para alcançar os corações , como esse percorrido até chegar aqui. Mas tem fé, e boa intenção na prece de frente pro resto do mundo...
Mangabeiras, árvores daquelas de mata fechada e animais com canto muito bonito. A verdade é que de não saber de onde vem a calma eles estão aqui, os três, à procura do começo. Outra vez. Já não se reconhecem completamente, estranham gestos, vozes, faces, até o tipo de prato a ser pedido no jantar. Mas se mantêm juntos. Unidos de um jeito torto. Doloroso e necessário...
No lugar onde tudo vai, tudo vem (e nada fica), visto minha capa invisível de adivinhadora de presságios. Homens de chapéu em cabeças muito altas avisam que aqui nada há de estar, é tudo parte de um plano para depois. Meu pensamento nem chega a pousar, ciente de que está em outros braços a milhas e milhas daqui. Perdi a chance de compor meus silêncios com suspiros de paz, sou só grito em desespero. A verdade é que agora habita em mim um turbilhão e meio, dois, três...
Melancolia logo de manhã, lembrança de outros tempos, sutil aviso de que estou gradativamente envelhecendo, sendo desfeita aos poucos. Inquieta sensação. A minha tristeza é aguda, transparente, mesmo sem saber ser. Cão que já não consegue saltar, as pernas bambas, fraqueza arrastada da vida inteira sobre os mesmos pés. Juventude viril que se depara com as infinitas reticências, o não poder ser agora – e não poder ser depois. Voz rouca madeirada pinga verdades em meu ouvido, profetiza horizontes nos quais não quero acreditar. Em fumacinhas agridoces a noite longa de amor dissolve-se inteira no ar, ressurge, revive e retorna ao vento, tornando-se pontos de luz no céu (e em mim). Enquanto preparo malas para seguir adiante, resta-me torcer. No barco que flutua para lugar nenhum me deixo ser invadida pelo frescor da promessa de amanhã, um amanhecer banhado de sol. Meu renascer...
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